Porque o Inhotim Deveria Fazer Seu Próprio Festival (E Não Trazer o SXSW Pra Cá) - Pulso

Porque o Inhotim Deveria Fazer Seu Próprio Festival (E Não Trazer o SXSW Pra Cá)

Semana passada compartilhamos em nossa fanpage a notícia da Folha sobre a possível negociação de uma edição do festival americano SXSW no Instituto Inhotim. Embora tenha despertado o interesse e animação de muitos fãs, a notícia foi desmentida por Gustavo Giglio, sócio do Update or Die, veículo que há anos participa do festival:

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O assunto veio logo após o anúncio (oficial) do South by Southeast Lawn (SXSL), um evento inspirado no SXSW e que levará empreendedores, criativos e inovadores para um festival nos jardins da Casa Branca.

Ainda que não passe de especulação, o episódio do Inhotim desperta uma série de questões relacionadas a importação de festivais gringos. Por exemplo, como pensar nestes eventos considerando as caraterísticas de sua edição matriz, sua comunidade e a indissociável relação com a cidade que o sedia. E por que apostamos que o Inhotim tem potencial para construir um festival para chamar de seu, independentemente de trazer (mais) uma label estrangeira para o Brasil.

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O que é o SXSW?

Sigla para South by Southeast, o SXSW é um conjunto de conferência e atividades que acontecem  na cidade de Austin, no Texas. Começou como um evento de música em 1987 e, na década seguinte, incorporou dois outros elementos que hoje fazem parte de sua estrutura principal: um festival de filme e uma conferência multimídia.

O festival acontece atualmente durante dez dias e compreende três programações independentes, em diferentes datas e locais e com acessos separados.

  1. Interactive, que engloba uma feira de negócios, palestras, festas e aceleradores de startups com foco principalmente em novas idéias, criatividade e tecnologia.
  2. Film, com programação de palestras, sessões de debates, workshops, sessões de mentoria com especialistas e líderes da indústria cinematográfica, além da exibição de filmes em diversos cinemas da cidade.
  3. Music, é considerado um dos maiores festivais de música do mundo, palco para artistas independentes e comerciais de rock, pop, hip-hop, folk, música eletrônica, worldmusic, experimental e quase tudo no meio do caminho. Em 2016, 67 países estiveram representados em cerca de 2.200 perfomances.
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Michelle Obama

Quem é o público do SXSW?

Na nota publicada pela Folha, o jornalista diz que o SXSW “arrasta moderninhos todo ano a Austin atrás do último grito em música e cinema”.

É lamentável ver que em 2016, à luz de todos os debates e discussões sobre diversidade, um jornalista de um respeitado veículo ainda utiliza estereótipos limitados e simplistas para definir um público de pelo menos 40 mil pessoas (SXSW 2016) que compartilham interesses, posições e origens diferentes, como anualmente mostram as pesquisas produzidas pelo evento.

Para quem já teve a experiência de estar em Austin ao longo dos dez dias do festival (os cinco primeiros de Interactive e os cinco últimos de Music) com certeza percebeu como o clima da cidade e o público muda nessa transição de Interactive para Music. Enquanto nos primeiros dias o clima é de network, com muita gente de empresas e startups de olho em inovações e negócios, nos cinco últimos a cidade é invadida por uma galera mais jovem, artistas e profissionais da industria da música, orientados pelas diversas atrações musicais do evento.

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Principais tipos de negócios dos participantes do SXSW 2016 (Demographics SXSW 2016)

E qual a relação com o Brasil?

Subiu de 200 (em 2013) para 600 (em 2016) o número de brasileiros que teriam participado de alguma das atividades do evento sediado em Austin.

De acordo com Tracy Mann, responsável pelo Marketing do SXSW aqui no Brasil, 120 brasileiros se inscreveram para o Panel Picker 2017, uma seleção aberta para que interessados em apresentar seus trabalhos possam se inscrever e ter suas apresentações selecionadas pelo público para a próxima edição. Ainda segundo Tracy, o Brasil teve apenas menos inscritos que o Reino Unido, dentre 60 países inscritos.

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Fresno

Além disso, em 2016 o Brasil teve o maior stand internacional no evento. Coordenada pela Agência Brasileira de Promoções de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), foram apresentadas 37 empresas da Indústria Criativa nacional. Em 2015 a mesma entidade levou 57 empresas brasileiras, cuja participação gerou 18,9 milhões de dólares em negócios.

O que veio antes? A cidade ou o festival?

Além da diversidade e da curadoria dos conteúdos e atrações, a cidade de Austin e a descentralização das atividades contribui (e muito!) para a experiência incrível que é esse evento. Nós já comentamos aqui, o quanto cidades de pequeno e médio porte como Austin, Colônia (Alemanha) ou Amsterdam são ideais para o sucesso de eventos como o SXSW, o C/oPop e o ADE.

Ao longo de trinta anos, o SXSW expandiu-se de um evento regional para uma marca de renome internacional a partir de um híbrido de convenção/festival/exposição. Mas determinar se o sucesso do SXSW estimulou o rápido crescimento de Austin ou se esse crescimento foi responsável pelo sucesso do SXSW seria como o paradoxo do ovo e da galinha, como discutido em entrevista com um dos fundadores do SXSW, Roland Swenson.

AUSTIN, TX - MARCH 15: Crowds of festival music fans on 6th Street during Day 4 of SXSW 2013 Music Festival on March 15, 2013 in Austin, Texas. (Photo by Andy Sheppard/Redferns via Getty Images)
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Na mesma matéria, é relatado que a cidade de Austin também vêm experimentando mudanças cruciais desde o início do SXSW. A população da década de 1980 dobrou, mas a influência do SXSW na cidade é muito mais intrigante do que apenas em termos estatísticos. Há trinta anos, a cidade já tinha uma reputação de viveiro musical. Mas, a medida que a programação do SXSW se expandiu para incluir filmes, tecnologia, jogos, medicina, esportes, comédia, ecologia e muitos outros temas, os horizontes sociais, culturais e empreendedores da cidade também se diversificaram consideravelmente.

Por Que Inhotim Deveria Fazer Seu Próprio Festival?

“Eu acho que o South by Southwest é um tipo de tecido da percepção do mundo sobre Austin e vice-versa” disse um dos fundadores do evento. E ele continua: “South by Southwest não poderia ter crescido se a cidade não tivesse construído um centro de convenções, um novo aeroporto e se todos esses hotéis no centro não viessem a existir. Nós seríamos bem menores do que somos”.

"The State of Diversity in Independent Film" Painel / SXSW 2016.
“The State of Diversity in Independent Film” Painel / SXSW 2016.

Importante lembrar que estamos falando de um festival de quase 30 edições anuais, na mesma cidade, influenciando e sendo influenciado por essa realidade. A ideia de crescer e promover o desenvolvimento local, bem como alinhar interesses entre diferentes setores envolvidos com esses tipo de evento é hoje um dos pilares mais importantes de se pensar nesses eventos e seu impacto e benefícios a longo prazo (veja o caso do nosso querido Hack Town, em Santa Rita do Sapucaí). Isso implica em uma mudança de percepção entre “pensar em um festival como evento” e “pensar em um festival como agente transformador“.

"Silicon Valley: Making the World a Better Place" Painel / SXSW 2016
“Silicon Valley: Making the World a Better Place” Painel / SXSW 2016

Além disso, sabemos que experiências de importar eventos estrangeiros para cá são complicadas, porque diferente da expectativa do público, nem sempre a entrega local consegue replicar a experiência do evento original, especialmente com relação à custos, equipamentos e aspectos culturais locais (ver o caso do Sónar Barcelona, que já tentou, mas não rolou – aqui aqui).

Também achamos o SXSW incrível, mas existe um número grande de festivais nos quais o Inhotim poderia se inspirar para, em alinhamento com o que é a essência do espaço, fazer o que eles magistralmente já mostraram que fazem muito bem: olhar para o mundo e se inspirar, mas promover e modificar a realidade local de forma surpreendente.

Se precisarem de uma ajuda, estamos por aqui. 🙂

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Leia mais sobre o SXSW aqui no Pulso:

Review: SXSW 2015

5 Formas de Hackear o SXSW 2015

Techno e Space Cowboys Invadem o SXSW 2015

Reflexões sobre SXSW, Burning Man e Sónar

SXSW e o Espírito do Tempo

Carol Soares Por Carol Soares

Don't ask about my job. Don't ask what I do. Judge the way I dance.

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