O show precisa parar. Porque cancelar e adiar eventos virou uma medida necessária para salvar vidas


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Infelizmente, o show precisa parar. Não para sempre. Mas pelo menos por enquanto. Mesmo com os prejuízos. Mesmo com as frustrações, gritos e birra dos fãs. Desde que a epidemia coronavírus virou pandemia, não é motivo e nem hora pra festa. É triste, mas é verdade.

O show tem que parar – e imediatamente – por duas razões:

1) O índice de contágio do coronavírus é bastante alto. Em média, para cada pessoa contaminada, outras 3 serão. Já existem estimativas de que entre 40% e 70% da população mundial será infectada em algum momento até o final do próximo ano. A pergunta deixou de ser “quem será impactado” para “quando seremos impactados”.

2) Cancelar e adiar eventos é salvar vidas. Como consequência do alto índice de contágio do vírus, existe um sério risco de que o sistema de saúde não possa dar conta de atender todos os casos necessários (veja o gráfico abaixo).

Esse gráfico explica a diferença a expansão do coronavírus sem controle (ex: com eventos liberados) e com controle (sem eventos)

Por mais que o índice de fatalidades do coronavírus seja ainda baixo – menos de 1% para pessoas com até 60 anos – dezenas de milhares de pessoas ainda irão morrer até que uma vacina surja. Isso vale especialmente para quem está na zona de risco, ou seja, pessoas com mais de 60 anos e com doenças pré-existentes (diabetes, cardíacos, pacientes com câncer etc).

Ou seja, mesmo que você não esteja nessa zona de risco, provavelmente conhece alguém próximo que esteja.

Por isso, o show precisa parar.

Carol e eu estamos há quase 4 meses fora do Brasil. Com exceção da China, estivemos em quase todas os países por onde o coronavírus se espalhou inicialmente (Tailândia, Japão e, agora, EUA).

Do lado asiático, já começamos a ver boas notícias. A China, pela primeira vez, apresenta dados de redução do contágio. A Tailândia, um dos primeiros países a apresentar um caso de coronavírus, também vem controlando o número de contaminados.

No Japão, vimos fechar de um dia para outro as escolas e museus. Mas desde antes disso todos os estabelecimentos comerciais, metrôs e trens já ofereciam gratuitamente álcool em gel. Além disso, 90% das pessoas usam máscaras – algo cultural dos japoneses, primeiro por conta da época de alergias e segundo por estar relacionado ao cuidado que eles têm de não passar adiante suas próprias enfermidades. Ações práticas, rápidas e eficientes. Mesmo assim (e por causa disso tudo), o plano agora é de adiar as Olimpíadas.

Por mais triste que seja, é isso: o show precisa parar.

A essência do evento é a catarse coletiva, o sentido de união, de trocas e liberdade. Infelizmente, esse momento o que o mundo precisa é justamente o contrário. Menos circulação de pessoas e menos contato é igual a menos contágio, menos hospitais lotados e menos mortes.

Há 5 anos, Carol e eu trabalhamos pesquisando e produzindo conteúdos sobre festivais. Somos apaixonados por essa cultura, na pessoa física e na jurídica. Ver cancelamentos de eventos como o SXSW, Ultra e Tomorrowland Winter, ou adiamentos de outros como o Coachella e Lollapalooza, é triste. Porém, diferente do que a música diz, tristeza tem fim, sim.

Depois da tempestade, o sol há de brilhar. Os festivais e eventos vão voltar. E prometem vir ainda mais fortes. Porque vai ter muita gente, como eu e talvez você, que vai estar esperando ansiosamente por esse momento. 

Esse foi o primeiro ano em 34 que o SXSW deixou de acontecer. Mas ao invés de simplesmente negar o dinheiro das dezenas de milhares pessoas que compraram para seus ingressos para ir nesse ano, eles deram a oportunidade de usar o mesmo ingresso em qualquer uma das edições nos próximos três anos (2021, 2022 ou 2023). A organização acabou de publicar que além de manter o ingresso, quem ja pagou pela edição de 2020 também poderá ganhar 50% de desconto comprando um adicional (medida que está ainda em avaliação).

Não sabemos quando a vacina para esse vírus virá. Não sabemos nem se vai ter mesmo a própria edição do SXSW. Mas, diferente do festival Ultra de Miami – que negou o reembolso de todas as pessoas e também não ofereceu a opção delas irem em uma próxima edição do festival – ao oferecer a opção de usar o ingresso em uma das suas próximas edições, o SXSW nos oferece também uma perspectiva de futuro.

Além de promovermos há meia década a cultura dos festivais, há exatamente três anos Carol e eu nos tornamos nômades digitais. Viajamos pelo mundo pesquisando eventos e lugares criativos. Traduzimos essa vivência em curadoria de experiências, que apresentamos em nossos cursos, palestras e projetos colaborativos de consultoria.

Ou seja, o coronavírus não só representa uma ameaça a nossa saúde, como também ao nosso negócio e estilo de vida. Apesar de tudo, não estamos em pânico. Nem vamos parar de trabalhar por causa disso. Revisamos os planos, adiamos projetos, mas a vida segue o fluxo. E nós também.

Seguimos os versos do Paulinho da Viola: “faça como um velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar.”

O show precisa parar, sim. Mas não a vida. Ela não.

Porque enquanto tivermos vida, a gente sempre vai poder esperar pela próxima festa, pelo próximo festival e pelo próximo show.

Até lá, façamos o melhor possível. E não esqueçamos de lavar bem as mãos.

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Cinco anos de pesquisa e conteúdo sobre a cultura dos festivais.

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