17 de outubro de 2018/POR Soraia Alves

Um interessante artigo publicado no Grazia, do Reino Unido, faz uma análise sobre como grandes festivais de música têm se tornado cada vez mais politizados, seguindo uma “onda contrária” do que muitas pessoas acreditam que seria o momento atual: de apatia política e festivais puramente comerciais.

A análise aponta que alguns dos festivais de música mais populares no Reino Unido e em outros países, como o Glastonbury, o Afropunk, o Brainchild e o Boomtown, têm se tornado cada vez mais orientados politicamente nos últimos ano, principalmente porque grandes questões têm sido debatidas ano após ano, caso do Brexit e do governo e Donald Trump, por exemplo.

Com isso, embora os festivais de música possam proporcionar uma chance de se desligar do estresse político aparentemente interminável do dia a dia, é de se esperar que tanto os artistas quanto o público estejam impregnados com as discussões sobre os temas, mesmo que ainda em bolhas menores que os que ali estão para curtir tudo como uma válvula de escape.

Afropunk Festival 2015 – Foto: Divulgação

Uma onda recente de politização

Nos últimos dois anos, festivais de música de todos os tamanhos tornaram-se cada vez mais políticos: desde a comida que servem e os artistas que contratam, até as conversas que esperam promover e as pessoas que convidam para falar.

No ano passado, por exemplo, o festival Shambala passou a retirar alimentos com carne de seu cardápio por razões ambientais, além de terem um espaço de compostagem para reciclagem e redução de resíduos. Já o Secret Garden Party afirma  em seu site que “nunca expuseram seus convidados a patrocínio, publicidade, ativação de marca ou áreas VIP”.

Em festivais maiores e mais focados na família, como o Latitude e o Greenbelt, os participantes do festival podem encontrar palcos dedicados a palestras e workshops sobre assuntos políticos.

Já o Glastonbury, que tem um público de 130 mil pessoas, passou a proibir a entrada de cocares de índios no festival, já que o “acessório” levanta discussões sobre apropriação cultural. O festival ainda tem o Left Field, um espaço inteiramente dedicado à “música de esquerda”, além de painéis e palestras.

Foto: Divulgação

Na edição deste ano, no entanto, o discurso passou do Left Field para o palco principal do Glastonbury, com a presença do líder trabalhista Jeremy Corbyn falando para milhares de pessoas sobre o resultado de uma eleição que viu o Partido Trabalhista obter ganhos em todo o país – embora não haja ganhos suficientes para expulsar os conservadores do poder.

É possível questionar o quanto o “Glastonbury realmente é de esquerda”, já que o festival ainda é povoado por um público branco e classe média. Mas há exemplos de eventos que têm a política em seu DNA, com o Afropunk, que já citamos aqui, e o Statement Festival, que também já mostramos aqui.

Os festivais podem ser uma paisagem muito libertadora para novas conversas e interações sociais, e quando consideramos o quê e o quanto os jovens estão falando no universo online, não é de surpreender que haja um aumento na vontade de conversas políticas nos festivais.

Afinal, o engajamento é incorporado em qualquer formato, inclusive em festivais.