8 momentos políticos em festivais

8 momentos políticos em festivais

Há quem diga que, ao longo dos anos, os festivais de música deixaram de lado sua essência política e provocativa, se transformando em gigantes parques publicitários onde o entretenimento elitista e alienado é a principal motivação de cada edição. Se esses mesmos festivais continuam refletindo o contexto sociopolítico em que estão inseridos, podemos tirar muitas reflexões desse cenário.

Mas, ainda que a indústria do entretenimento tenha engolido os ideais vistos em festivais como Woodstock, a resistência, principalmente representada por artistas engajados, continua dando suas caras nos mais variados eventos, seja de forma sutil ou em coros de “Fora Temer”.

8 momentos políticos em festivais

Separamos 8 momentos políticos em festivais que nos ajudam a respirar um pouco de esperança em momentos de caos, como o atual.

Reunimos momentos da década de 90 até agora, pois, como o início do texto indica, a ligação entre política e festivais era mais intensa em décadas anteriores. Confira (e resista!).

Os membros do Rage Against the Machine pelados no Lollapalooza 1993

Em 1993, os adesivos de censura (Parental Advisory) foram forçados a aparecerem nas capas de álbuns com letras mais explícitas. Como forma de protesto à lei, os membros do RATM entraram nus no palco do Lollapalooza, em Chicago, apenas com uma fita preta tapando suas bocas e as siglas PMRC (Parents Music Resource Center) no peito.

A criação do Afropunk Festival em 2005

O Afropunk Festival reúne música, artes, moda, empreendedorismos e cultura negra, é organizado por negros, e acontece em vários lugares do mundo. Ele surgiu da vontade de James Spooner em compartilhar seu gosto pelo Punk Rock, o que não era bem visto nem entre os afro-americanos, por ser um estilo musical predominantemente branco, e muito menos pelos brancos, já que James era negro.

Spooner encontrou outros jovens negros que curtiam o movimento punk, fez o documentário “Afro-Punk” e viu outras pessoas negras que se sentiam fragmentadas, se identificarem com seu sentimento. É desse sentimento e união que nasceu o festival, que tem como base a negritude em movimento, com pessoas negras na organização, nos palcos, produzindo e empreendendo.

O Afropunk também se posiciona politicamente contra a homofiobia, gordofobia, transfobia, sexismo, racismo e outras opressões.

U2 contra Donald Trump no iHeartRadio Music Festival 2016

Durante seu show no iHeartRadio Music Festival, em 2016, o U2 deixou BEM claro que não apoiava Donald Trump, que na época ainda era candidato à presidência dos Estados Unidos.

A banda fez uma montagem com algumas imagens e discursos recentes de Trump enquanto tocavam a música “Desire”.

Os protestos de Criolo no Lollapalooza 2017 (abafados pela TV)

Em meio a um cenário político brasileiro já turbulento, Criolo fez diversos protestos contra a política nacional e, principalmente, contra o impeachment de Dilma Rousseff, sempre amparado por um coro gigantesco de “Fora Temer” vindo do público.

É verdade que o discurso politizado é uma característica do rapper, mas o que chama atenção dessa vez, é que quem assistia ao show pela TV percebeu como os protestos, principalmente o coro do público, foram abafados pela emissora que transmitiu o festival.

Criolo também falou bastante sobre machismo e a cultura do estupro, terminando com a mensagem: “Qualquer mulher que você mexer no rolê é um ato de violência. Diga não à cultura do estupro.”

O beijo de Liniker e Johnny Hooker no Rock in Rio 2017

Enquanto Liniker e Johnny Hooker cantavam “Flutua” no palco Sunset do Rock in Rio 2017, o telão exibia informações tristes sobre a realidade de como o Brasil trata a comunidade LGBTQ+, sendo o país que mais mata pessoas LGBTQ+ no mundo.

Após o canção, os dois deram um beijo como forma de representar o amor livre, que tem sido até mesmo motivo de pautas entre candidatos das eleições. A mensagem “amar sem temer” também foi bem direta!

Stevie Wonder de joelhos no Global Citizen Festival 2017

Nos últimos anos, os Estados Unidos foram palco de uma grande onda de racismo e o dito “nacionalismo branco”, em parte organizados por grupos que apoiam o governo de Donald Trump. Artistas e atletas, principalmente jogadores da NFL, passaram a protestar contra o racismo ajoelhando no momento em que o hino nacional é tocado, ato que foi criticado por Trump.

Em meio às críticas do presidente, Stevie Wonder ajoelhou durante sua performance no Global Citizen Festival 2017 dizendo: “É uma forma de oração para o nosso planeta, nosso futuro, para os líderes do mundo, e para o planeta. Amém”.

A criação do Statement Festival em 2018

O Statement Festival é o primeiro festival do mundo que proibiu a presença de homens cisgênero. A iniciativa surgiu justamente após uma onda de denúncias de assédio sexual em festivais da Suécia, incluindo alguns estupros. Segundo o The New York Times, o Bravalla, considerado o maior festival do país, teve sua edição de 2018 cancelada porque os organizadores não podiam garantir um ambiente seguro.

Então, se não há um ambiente seguro para mulheres, homens e mulheres transgêneros e pessoas não-binárias em um festival aberto, nada mais justo do que a realização de um evento onde a ameaça fique de fora.

Beyoncé no Coachella 2018

Toda a apresentação de Beyoncé no Coachella deste ano pode ser considerada um ato político. Beyoncé foi a primeira mulher negra a ser headliner do festival e fez questão de ressaltar isso em um dos momentos de sua performance, que também foi um ode ao feminismo e à diversidade.

Ao cantar “Lift Every Voice and Sing“, apontado como hino nacional negro americano, Beyoncé deixa clara sua mensagem contra o racismo.

Soraia Alves Por Soraia Alves

Jornalista formada pela UNESP-Bauru. Trabalha com web jornalismo e cultura pop.