Atualização de cenários sobre a reabertura de eventos: quando voltam as festas e o que aprendemos até agora


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Quando voltam as festas? E os festivais? Como está sendo a reabertura de eventos no Brasil e no mundo? O que muda daqui em diante?

Essas são algumas das perguntas mais frequentes que escutamos em nossas lives ou em conversas com parceiros, clientes e membros da comunidade OCLB.

Faz três meses desde que publicamos aqui no Pulso um longo artigo explicando porque cancelar e adiar eventos virou uma medida necessária para salvar vidas.

Passado pouco mais de 100 dias desde o 1º caso confirmado do novo coronavírus no Brasil, chegou a hora de atualizarmos o cenário de eventos com base no que aprendemos até agora.

Antes, um rápido contexto.

Dia 7 de junho o mundo registrou o mais alto número de diagnósticos de infecção num único dia desde o início da pandemia da covid-19. Foram mais de 136 mil pessoas detectadas com a doença num intervalo de 24 horas. 

Ou seja, a curva do contágio continua subindo.

Nesse momento, quem puxa a média para cima são países como a Índia, México e, principalmente, o Brasil.

O Brasil, único país do mundo sem um ministro da saúde nesse momento, 2º país em número de infectados e também de mortos, e cujo presidente insiste em violar as normas de distanciamento social abraçando apoiadores em praça pública sem máscara no rosto, aos poucos relaxa o confinamento para reabrir o comércio.

Curva com o número de casos de covid-19 no Brasil em 13/16/2020

Isso tudo em meio ao pico da doença…

O painel da universidade Johns Hopkins é uma das melhores fontes para acompanhar a evolução da pandemia em tempo real

A disputa do cabo de força entre a crise econômica versus a a crise social-sanitária pende cada vez mais para o lado onde a dor bate mais forte: no bolso dos brasileiros. 

Embora alguns governadores se esforçam para conter o agravamento da crise, o alto custo político de manter eleitores “presos em casa” em meio a uma economia em colapso é o como tentar apagar um incêndio usando copos d’água.

Então, nada mais resta a fazer senão admirar as geleiras ao mar se aproximando enquanto o Titanic segue seu rumo, certo?

Nada disso.

Existe uma coisa que você e eu podemos fazer. A mais importante de todas nesse momento. 

Informar-se com consciência. E agir com responsabilidade.

A seguir, destaco quatro aprendizados destes últimos cem dias. E o que podemos esperar daqui em diante.

Separe um café, escolha um lugar silencioso e senta que lá vem textão…

1. Diferentes realidades para diferentes eventos

A primeira informação a saber é que não existe uma resposta única para a pergunta quando voltam as festas e eventos.

Pelo simples fato que existem diferentes tipos de eventos e diferentes contextos locais da pandemia.

Apesar do Brasil ser o 2º país com o maior número de mortes e também o 2º com maior número de infectados, é preciso observar que existem cidades onde a doença está mais controlada que outras.

Isso não quer dizer que essas cidades devam retomar suas atividades como se nada estivesse acontecendo.

Simplesmente que a resposta sobre quando voltam as festas e eventos pode ser respondida de forma local, de acordo com a realidade de cada cidade e estado, e também sobre que tipo de evento estamos falando.

Ainda sobre eventos, poucos fizeram uma análise tão bem articulada sobre a reabertura como Gabriel Benarrós, CEO da Ingresse.

Ao usar uma lente voltada para a inteligência de dados, o executivo criou um gráfico bem lúdico analisando o perfil de risco de certos eventos de acordo com duas variáveis: potencial de contágio versus número de pessoas no evento:

O que abre e quando de acordo com o perfil de risco. Fonte: Gabriel Benarrós, Ingresse

Ao final do artigo, Gabriel traz uma pertinente provocação: como utilizar a tecnologia para entender o impacto de cada tipo de evento, usando essas mesmas informações para retroalimentar novos protocolos de segurança. 

Como a tecnologia de monitoramento pode ser usada em prol da reabertura de eventos. Fonte: Gabriel Benarrós, Ingresse

O controle da pandemia através do uso da tecnologia é uma prática fortemente utilizada na Ásia, em particular Singapura, Coréia do Sul e China, onde governos locais vêm investindo agressivamente no controle da doença através de aplicativos que rastreiam a jornada de contágio do covid-19.

Esse é um assunto altamente controverso, que consiste na disputa entre a invasão de privacidade e a perda dos direitos individuais versus o entendimento de que o grupo é mais importante que o indivíduo e o governo é responsável por ele.

Pensadores como o historiador israelense Yuval Harari e o filósofo sul coreano Byung-Chul Han escreveram excelentes ensaios sobre o assunto. 

Recomendo ler ambos para entender. É um assunto que promete virar trending topic em diversos festivais e conferências de inovação mundo afora.

2. Quando voltam as festas? Guie-se pelos protocolos!

Assim como acontece com os eventos, cada país, estado ou cidade tem uma realidade diferente para lidar com a crise.

Mas todos trabalham com uma abordagem semelhante para conter o contágio do covid-19, ou seja, uma retomada gradativa e dividida em fases.

Durante as lives semanais do ØCLB de Pijamas, entrevistamos Vander Lins, coordenador de eventos da secretaria de turismo de São Paulo.

Vander nos explicou como funciona o Plano São Paulo, documento que apresenta as fases de reabertura das atividades de comércio e serviços na capital paulista.

 Vander explica de forma didática como funciona as fases de reabertura do Plano São Paulo

Os critérios para a reabertura são estabelecidos a partir de duas variáveis: capacidade do sistema de saúde e evolução da epidemia

O que a cidade de São Paulo leva em consideração para abrir ou não suas atividades

Cada setor da economia tem suas próprias “regras” para a reabertura.

Essas regras – também conhecidas como protocolos – são criadas a partir de um acompanhamento constante sobre a evolução da doença, aliada à pesquisas e conversas com entidades de classe, que fornecem ao governo ideias e informações sobre como diversos setores da sociedade poderiam voltar a funcionar suas atividades com segurança.

Na prática, uma boa maneira de entender como se dará a reabertura é pensar em um jogo de videogame.

A medida que formos controlando a evolução da pandemia, e a situação do sistema de saúde sob controle, “passamos de fase”. 

As fases do Plano São Paulo. Não vamos passar da fase 1 para a 5. Quanto melhor trabalharmos em conjunto como sociedade, mais rápido passamos de fase.

Mas atenção: se chegamos na fase 4 e a situação fugir de controle, voltamos ao “início do jogo”.

Quer dizer, até a vacina com a cura para a doença ser criada (e ser comercializada em larga escala e estar disponível para toda a população), a realidade é que ficaremos nesse jogo de relaxamento e confinamento da quarentena ainda por um bom tempo. 

Prova disso aconteceu na semana passada em São Paulo. 

Na última quarta-feira (10/06), o governo reabriu parte do comércio. No mesmo dia, o governador João Doria informou uma nova quarentena na cidade entre os dias 15 e 28 de Junho.

Para organizadores de eventos, em particular os de festivais, a situação é complexa. 

Festivais de grande porte como o Lollapalooza Brasil, que adiou sua edição de abril para dezembro, correm o risco de não serem realizados nesse ano. Sua edição original, em Chicago, prevista para agosto desse ano, acabou de ser cancelada

O Coachella, originalmente marcado para abril e adiado para outubro de 2020, foi outro que acabou de cancelar sua edição desse ano.

De uma forma geral, é consenso afirmar que 2020 será o ano em que os festivais deram uma pausa. É improvável, mas não impossível. Pode ser que voltem ainda no 2º semestre.

O EXIT, da Sérvia, um dos maiores festivais da Europa, teve um “ok” do primeiro ministro do país para ser realizado (em nova data, ainda sob estudo). 

Mas até a vacina chegar e estar disponível para a população, a realidade é que os grandes festivais dificilmente serão realizados nesse ano.

A Sympla, maior plataforma de eventos no Brasil, também lançou nessa semana um excelente relatório apresentando como vem sendo a reabertura de eventos em diferentes países do mundo, incluindo alguns cases, protocolos e notícias.

Recomendo baixar e conferir o material.

3. Tendências: eventos boutique e a céu aberto

O portal de viagens Matador, uma das principais referências em viagens e turismo, realizou uma extensa pesquisa com mais de 2 mil participantes de todo o mundo.

Ao perguntar “uma vez que as autoridades de seu país estabelerecem que as viagens estão seguras, qual tipo de viagem a lazer você terá mais interesse”, a maioria das pessoas respondeu “aventuras a céu aberto”.

Atividades a céu aberto (outdoor) estão em alta. Cruzeiros e pacotes turísticos são as atividades que as pessoas dizem estar menos interessadas pós-pandemia.

Embora a indústria dos grandes eventos e das mega conferências esteja em alerta vermelho até a vacina com a cura chegar, eventos menores, que consigam adaptar-se às medidas de distanciamento social, em particular aqueles em locais a céu aberto, devem ser os primeiros a ser realizados, a medida que avançamos nas fases de reabertura de negócios.

Na Inglaterra, a primeira rave com distanciamento social acabou de acontecer. Bem meia-boca, mas… é um primeiro passo!  

Já o portal de notícias norte-americano The Atlantic publicou um extenso artigo detalhando descobertas recentes de pesquisas na Ásia sobre a maneira como o novo coronavírus se espalha em ambientes fechados como escritórios e restaurantes.

A conclusão inicial de estudos feitos na China e na Coréia do Sul é a de que o vírus se concentra em lugares densamente populados e com pouca circulação:

Planta baixa de um ambiente fechado onde houve um surto da pandemia em Seoul, Coréia do Sul. Os assentos em azul são onde as pessoas contaminadas estavam sentadas. O estudo sugere que quanto mais próximos e menor a circulação, maior é a quantidade de infectados (Courtesy of the Centers for Disease Control and Prevention)

Também, que a direção do ar-condicionado contribui diretamente para uma disseminação e concentração do vírus.

Planta baixa de um restaurante e a direção do ar-condicionado em um dos lugares identificados como centros de contaminação em Guangzhou, China. O circulo amarelo é a primeira pessoa infectada. Em vermelho, quem ela infectou na sequência. (Courtesy of the Centers for Disease Control and Prevention)

Para organizadores de eventos, a dica é clara: aposte em eventos outdoors. 

E também em “eventos boutique“, voltados para um número menor de pessoas, cuja entrega de experiência seja ainda mais cuidadosa, seguindo todos os protocolos de saúde e segurança.

Vale lembrar que a Coréia do Sul voltou a entrar em quarentena depois que identificaram um novo surto da doença em um bairro de Seul conhecido pela sua vida noturna, bares e clubes.

Lembra das fases do jogo? Então…

4. Virtualize-se (se puderes)

Se você chegou até aqui, provavelmente se deu conta de que provavelmente continuaremos a viver como nos últimos 3 meses por mais um bom tempo até a vacina com a cura chegar, algo que os especialistas prevêem somente para o primeiro semestre de 2021.

Por outro lado, na crise existem oportunidades. Principalmente a de reinventar-se enquanto negócio.

Tecnologias de streaming estão evoluindo a passos largos, assim como novos modelos de negócios. 

Grandes eventos de tecnologia como o Google I/O e o Facebook F8 foram cancelados. Por outro lado, um novo boom de summits virtuais e conferências de marketing online vem surgindo

Além de ter exibido parte da sua programação de filmes em um festival virtual em parceria com a Amazon Prime, o SXSW vem realizando semanalmente lives com palestrantes de renome.

As conferências canadenses C2 e Collision também adaptaram-se para o ambiente virtual.

No Brasil, agências de live marketing vem se especializando cada vez mais em oferecer soluções de streaming para a organização de eventos online.

A TM1, por exemplo, realizou um festival de conteúdos para discutir o futuro das experiências com quatro horas de duração e mais de vinte mil visualizações.

Desde que a pandemia começou, escrevemos diversos artigos para o blog da Sympla com dicas sobre como migrar suas produções para o meio online. 

Já explicamos, por exemplo:

Entre outros artigos para quem quer começar, mas ainda não sabe como. 

Por aqui, é claro, praticamos o que ensinamos.

Por isso, passamos a levar os conteúdos que disponibilizamos em nossos cursos e palestras no ØCLB de Pijamas, um “curso vivo” onde recebemos líderes e executivos referências na indústria do entretenimento para entrevistas sobre o futuro desse setor.

Como falamos em algumas das nossas lives, estamos vivendo uma situação sem precedentes, e por isso mesmo devemos estar atentos às oportunidades que surgirão a partir dela. 

É como se estivéssemos em meio a um jogo de tabuleiro do tipo War. 

De repente, rolou um apagão. 

Durante o apagão, alguns dos jogadores se aproveitaram do momento e mudaram todas as peças no mapa do jogo.

Quando a luz voltar e olharmos de novo para o tabuleiro, tudo estará mudado. Alguns players terão dominado “o novo jogo”. 

Serão justamente aqueles que conseguirem se movimentar nesse período para observar o cenário, aprender habilidades necessárias para adaptar-se ao mundo pós-pandemia e, principalmente, criar valor num rápido e curto espaço de tempo para os seus clientes.

Da mesma forma que a indústria do turismo foi ressignificada após o “11 de Setembro”, todas as indústrias – em especial, a do entretenimento ao vivo – serão bastante diferentes depois que a pandemia passar.

Da mesma forma que todo Brasileiro se lembra onde estava quando tomou 7 a 1 da Alemanha na Copa do Mundo, a maioria de nós vai passar por essa crise com muitas histórias para contar.

A provocação final desse artigo é essa: e você, qual história vai contar sobre o que fez durante esse período?

Aguardemos cenas dos próximos capítulos.

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Cinco anos de pesquisa e conteúdo sobre a cultura dos festivais.

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