21 de fevereiro de 2016/POR Luiz Guimarães

Uma praia deserta na Bahia, 7 pistas com programação (quase) 24 horas, centenas de DJs, 20 mil pagantes de dezenas de nacionalidades acampados por 9 noites. Não dá pra negar que o Universo Paralello é uma enorme imersão em tudo que não é rotina, mesmo entre festivais. Essa proposta me levou pela primeira vez à edição de 2008 e após viver essa experiência pela quinta vez, provavelmente estarei presente na próxima edição, em 2017.

Acredito que a curadoria de um festival possui duas grandes responsabilidades: preservar o que é clássico e apresentar o futuro a quem tem sede de novidade. Na edição #13, o Universo Paralello se dividiu em 7 pistas cheias de personalidade, como a música eletrônica é: Mainfloor, UPClub, Palco Paralello, 303 Stage, Tortuga, Chill Out Circulou.

1. Mainfloor

Main Floor - CB Fotografia

Provavelmente foi o line up mais honesto e bem distribuído que já vi no UP.  Houve um enorme cuidado em criar sequências que “contassem histórias”, de acordo com o BPM e todos os elementos que podem envolver a música. Café da manhã com progressive e almoço com full on. Noites quentes de hi-tech que abriam espaço para madrugadas de dark. Tardes de psytrance que levaram para GoaTrance.  Em dois dias eu me vi obrigado a ficar mais de 12 horas na pista acompanhando alguns dos maiores DJs do mundo dando espetáculos e promovendo algo que só vejo no Universo Paralello: unidade.

Vivi um dos momentos de maior identificação da minha história na cena da música eletrônica na tarde do dia 02/01, quando assisti a uma das sequencias mais incríveis em festivais: Raja Ram (UK), que tem mais que o dobro da minha idade, só tocando psytrance, Astrix (IL) e Burn in Noise (BR). Pista lotada, sol de verão dos trópicos presente e uma energia que transformava todas as pessoas em velhos amigos.  

A decoração do festival esse ano foi inspirada no tema “mar”, assinada pelo coletivo Piratas-De-Ibiza. O Mainfloor cumpriu seu papel como “pista principal” do festival. Muitos DJs importantes para a história do psytrance, um bar enorme que nos atendia da melhor forma possível e uma qualidade de som que você não encontra em qualquer lugar. Era possível ouvir claramente cada kick em qualquer ponto da pista.

Main Floor - Leilane Delazere2

Main Floor - Into a Black Hole

Main Floor - Rhuan Cavalcante

Main Floor - Tiago Lima

Tiago Lima

  2. UpClub

A pista UPClub é novidade pra mim. Antes chamada de “Pista Alternativa”, o espaço reservado para os BPMs “baixos” como minimal, house e techno cresceu, e muito. Vejam como era a pista alternativa há alguns anos atrás:

Essa foi a UPClub nessa edição:

UP Club

Com exceção do Mainfloor, todas as pistas eram a beira do mar. E nada como entre um Dj set e outro dar um mergulho para aliviar o calor – que é o vilão do festival para muita gente.

Passei pouco tempo no UPClub. A música que eu ouvia lá encontro com facilidade na noite do Rio de Janeiro, mas mantendo o que encontramos em outras pistas, as “sequencias” eram impressionantes e não consegui fugir delas. Como lidar com Kolombo (BE), Dimitri Nakov (FR), Renato Ratier (BR), Madmotormiquel (GE), Fran Bortolossi (BR)? Ou então passar a primeira madrugada do ano com Boris Brejcha (GE), Alok (BR), Gabe (BR), Doctor Dru (GE) e Atmos (SE)? Um prato cheio para quem gosta.

UP Club 2

O UPClub levanta controvérsias porque atrai um público mais “urbano” e supostamente menos conectado com a proposta de desconexão do festival.  Também apontam que o crescimento dessa pista é puramente uma questão comercial. E se for? Eu sigo acreditando que no Universo Paralello temos espaço para tudo que é eletrônico e para todos que estão de coração aberto à unidade que o festival proporciona. Essa diversidade é o que faz a energia circular e não tem nada a ver com a proposta do festival julgar quem gosta de música A ou B.

UP Club 3

 3. Palco Paralello

“Como você aguenta uma semana com essa música na sua cabeça?” minha mãe me pergunta isso todas as vezes. E provavelmente pensando nisso, a produção tem investido em “shows” que fogem do óbvio. Emicida, Hightligh Tribe e Criolo foram alguns dos nomes que marcaram presença no festival e deram descanso a galera do ‘tuntz tuntz’.

Palco Paralello - Naturally Mystic

Não assisti a nenhum show por dois motivos:

  1. Prioridades e desapego: Em um festival desse tamanho você sempre perde algo que você quer muito ver, porque prefere assistir àquele DJ da Ásia que a sua única oportunidade vai ser ali, no mesmo horário.

  2. Distância: A distância do MainFloor até esse palco, por exemplo, era de 20 minutos de caminhada na areia fofa da Bahia, naquele calor.  Entre o UPClub e a Tortuga, extremos do festival, era uma caminhada de tranquilamente 40, 50 minutos.

4. 303 Stage

É uma das minhas pistas favoritas.  Pequena, bem decorada, na beira do mar e com uma proposta: homenagear o sintetizador Roland TB-303, que foi usado até a exaustão por Djs de Chicago para produzir música eletrônica nas décadas de 80 e 90. Antes chamada de pista “Goa”, a 303 Stage tem o compromisso com os sons mais “pesados” como Goa e FullOn Dark, que pode chegar a 200BPMs.

303 Stage - CB Fotografia

5. Tortuga

A Tortuga possui uma proposta incrível: diversas festas do país são convidadas para montarem suas festas dentro do Universo Paralello. Isso abre tantas portas para a diversidade musical, que eu não pude deixar de ir várias vezes: Bass Down Low; Colab 011/Só Pedrada; Groove In; Desprentex; Porn; Drop Like It’s Hot; My House.   

Tortuga - Rhuan Cavalcante

Rhuan Cavalcante

Tortuga - Patrick Gomes

A primeira vez que fui nessa pista estava tocando Wild For The Night (A$AP ROCKY ft. Skrillex) e nos 10 segundos iniciais fiquei sem entender nada: finalmente o Universo Paralello saiu do óbvio. E falo que saiu do óbvio porque colocar Trap, Bass e Dubstep no line-up do festival é mais do que dar “espaço” a esses estilos. É reconhecê-los como música eletrônica.

Um dos melhores sets que ouvi no festival fora do Mainfloor foi do duo Tropkillaz (BR). Conhecidos mundialmente por um trabalho que mistura tudo que couber nos sets, representaram bem essa diversidade que eu amo na música eletrônica. Foi um set padrão (ótimo), que já ouvi em outras oportunidades e certamente ouvirei novamente. Boa noite abriu um set de 2 horas que teve trap, bass, dubstep, funk ostentação. Teve Kuduro e Sunguro. Teve Karol Conka, teve Milkshake brings all the boys to the yard. E teve a diva Valesca da Gaiola. Vivi para ouvir Valesca no Universo Paralello, obrigado Zegon e André por levar o funk para a Bahia. Funk é música eletrônica, doa a quem doer.

Entre as festas de House (e finalmente ouvi house-tribal) e de Trap/Dubstep, a Tortuga se mostrou como o espaço para o “novo”. A curadoria acertou muito. Mistura, inovação, possibilidade de conhecer algo diferente. Esse foi o maior acerto do Universo Paralello.

6. Chill Out

Festival de cultura eletrônica sem chill out não existe.  Mas, infelizmente, grande parte do público confunde tudo e entende o chill out como uma área de descanso. E não é.  É uma pista de dança, como qualquer outra. Todas as vezes que passei pelo chill out encontrei sons “ambiente”, e a noite costumava rolar jazz e reggae.

Embora esse ano o chill out tenha sido relativamente pequeno para o tamanho dos outros palcos, a estrutura era linda e podia ser vista de qualquer lugar da praia.

Chill Out - Leilane Delazere

Chill Out - Guilherme Borges

Guilherme Borges

7. Circulou

A arena circulou reúne todo mundo que sabe que o Universo Paralello vai um pouco além da música. Oficinas de malabares, apresentações de circo e teatro, competição de rap, entretenimento para crianças, prática coletiva de yoga. Estava especial esse ano, com programação farta e para todos os gostos.

Circulou - Rhuan Cavalcante

Rhuan Cavalcante

Oficina de Malabares - Zidy Feijao

Zidy Feijao

Na segunda parte do review do UP 2016, “Além das Pistas”