30 de outubro de 2018/POR Pulso Crew

Os festivais de música, como conhecemos hoje, existem desde o final do século XIX. Mas, nas últimas décadas, esses eventos viram um crescimento de sua popularidade e do seu público, passando por mudanças e uma grande ressignificação. Graças à Era da Experiência, os festivais mudaram a forma como são planejados e organizados.

Quando pensamos em festivais icônicos do passado, logo lembramos do Woodstoock, que aconteceu em agosto de 1969. Além de ser um dos primeiros grandes festivais a chamar a atenção do mundo, o Woodstock também é considerado o maior e mais influente de todos os tempos.

Seja como celebração ou protesto, o Woodstock foi o festival que abriu o caminho para todos os outros festivais que se seguiram.

Mas, ao olharmos para a configuração da maioria dos festivais contemporâneos, percebemos que muita coisa mudou desde então. Principalmente as experiências que esses festivais oferecem ao público. Hoje, o entretenimento se faz presente de formas cada vez mais variadas.

Divulgação Sziget, Budapest 2017

Passamos dos motes da música, celebração e protesto (como nos tempos de Woodstock), para os tempos de selfies e snaps, foodies e burners. Tudo isso graças a chamada Era da Experiência, que tem ditado tanto a forma como o público interage com estes eventos, como os conteúdos que fazem parte deles.

Coachella 2017 – Foto: Divulgação da Instação de Arte Chiaozza Garden

A Era da Experiência

A Era da Experiência, por definição, começa a surgir a partir da década de 90, diretamente ligada à expansão da internet, e, consequentemente, aos novos padrões de expressão e consumo decorrentes da popularização de smartphones e redes sociais.

A tecnologia mudou a forma como vivemos a experiência de um festival

Além de novas demandas de consumo interligando real e virtual, as opiniões de cada um, postadas e replicadas, passaram a afetar diretamente o consumo. Com isso, comentários positivos e/ou negativos sobre uma empresa, um serviço ou evento têm resultados diretos nos mesmos: consumimos mais daquilo que ouvimos elogios, e deixamos de consumir aquilo que chega até nós com queixas e reclamações.

Na maioria das vezes, as experiências de outros consumidores é o que mais influencia o nosso consumo, independente da nossa própria experimentação.

Essas experiências englobam os mais variados aspectos do consumo, indo muito além da experiência utilitária do produto/serviço, e passando a valorizar detalhes que fazem a diferença em aspectos como “onde”, “quando” e “por que” esses produtos/serviços são consumidos.

O bolo na cara passou a ser uma experiência inesquecível

Atrelado ao conceito de Era da Experiência, surge outro termo: a Economia da Experiência. Esse termo, cunhada pelo escritor e consultor Joseph Pine, foi usado para definir a crescente relevância da experiência dentro do mundo dos negócios.

De forma simplificada, a Economia da Experiência explica porque consumidores exigem mais que um bom café, saído direto da cafeteria. Para os novos consumidores, uma experiência deve ser completa, considerando não só a qualidade do café, mas também toda a atmosfera e o ambiente onde ele será consumido.

Drinks orgânicos do festival Wonderfruit

Assim, também para os festivais, outros aspectos começam a importar, fazendo com que esses eventos passem a se adaptar aos novos padrões de consumo e exigências do público.

Coachella 2018 – Foto: Divulgação do sorvete produzido especialmente para o festival

A ressignificação dos festivais na Era da Experiência

Dentro desse contexto no qual Não basta apenas servir. É preciso criar uma experiência especial”, os festivais de música passaram a oferecer múltiplas atrações, além de uma grade atraente de shows.

Um verdadeiro circo é montado dentro do Sziget em Budapest

Ativações de marcas, experiências gourmet e personalização de drinks; arquibancadas especiais ou camarotes instalados dentro dos palcos para assistir shows com um ponto de vista único; exposições e instalações de arte; palestras e conteúdos inspiradores; workshops de vogue dance, meditação ou caligrafia; stands de maquiagem, cabeleireiros e academias dentro de campings etc. Serviços e atividades que adaptam-se aos desejos de uma geração pós-digital, prontas para virar Stories.

Fãs de festivais demandam cada vez mais opções de diversão para além das apresentações musicais. Descobrir, testar e viver novas experiências passam a ser atrativos importantes aos festivais, transformando esses eventos em verdadeiras cidades temporárias.

Um bom exemplo dessa adaptação nos maiores festivais do mundo é a preocupação em criar instalações e cenários “instagramáveis”. Destacam-se os eventos com atrações visuais que atendam à demanda do público em busca de boas fotos e videos para abastecer suas redes sociais. Nesse quesito, festivais como Coachella, Burning Man e Tomorrowland dão aula.

Tomorrowland é a Disney dos festivais

Experiências gastronômicas cada vez mais variadas também são essenciais para atender grupos crescentes como os vegetarianos e veganos, além de oferecer experiências diversas ao paladar. Hoje, até mesmo os festivais como o Primavera Sound, conhecido por ser “a Meca da música indie”, investem em verdadeiros line-up de comidas:

É a experiência quem garante a longevidade de um evento

A experiência do festival é o que define se o público dirá que gostou ou não do evento. É o que faz as pessoas lembrarem daquele dia especial, tanto ou mais que os shows de seus artistas favoritos.

A abundância de atrações e possibilidades ressignificou os festivais como os conhecemos, amplificando a sua popularização, estimulando o turismo cultural e consolidando o termo “cultura de festivais”.

Hoje, existem milhares festivais espalhados pelo mundo (somente nos EUA, há mais de 800). Esta indústria atende cada vez mais nichos, permitindo que o público vivencie experiências personalizadas e pensadas exatamente para o seu perfil. Mesmo dentro do universo de festivais menores (em público), as experiências não deixam de estar presentes.

Com isso, os festivais também tornaram-se grandes vitrines para empresas e marcas que desejam oferecer experiências ao público. Essas experiências possibilitam não só que um produto ou serviço se torne conhecido pelo público, mas que as marcas passem a ser lembradas pelos consumidores e, principalmente, associadas àquele ambiente e àquela cultura. Ou seja, as marcas passam a se associar com um momento especial para consumidor, passando a ser também especial para ele.

Vale ressaltar que a ressignificação dos festivais na Era da Experiência não é algo que transformou a essência dos festivais em algo negativo. Pelo contrário. A celebração coletiva ainda é o pilar fundamental dos festivais, tendo como principal manifestação cultural a música. O que vem acontecendo é uma adaptação da forma e conteúdo sobre os novos significados de um festival, a fim de seguir os desejos e modelos de consumo das gerações nascidas em um maravilhoso mundo pós-digital.