18 de julho de 2018/POR Soraia Alves

O Pulso Entrevista é uma série de bate-papos com produtores, criadores, curadores e todo mundo que faz os nossos queridos festivais acontecerem. Aqui você confere como surgiram esses festivais, o que está envolvido na realização de cada edição, curiosidades e muito mais!

Nossa nova coluna estreia com uma conversa com Gabriel Andrade, um dos fundadores e curador do Coala Festival, que chega em sua quinta edição ganhando um dia a mais de evento.

O Coala já recebeu em seu lineup nomes como Caetano Veloso, Tom Zé, Criolo, Baiana System, Emicida, Silva, Céu, Marcelo Camelo, entre outros artistas que ajudam no estímulo da cultura nacional. Por isso, além dos shows, o festival abre espaço para artistas plásticos, grafiteiros e micro-empreendedores que acreditam na importância do incentivo à cultura brasileira.

Gabriel Andrade

A história do Coala Festival

Gabriel conta que o Coala surgiu como uma ideia entre amigos. O projeto saiu mesmo de um telefonema em 2012, cuja conversa foi, de fato, mais ou menos assim:

“- E aí, beleza?
– Beleza, e aí?
– Beleza. Eu tava pensando aqui: e se a gente fizer um festivalzinho com 4 ou 5 bandas ‘pequenas’ mas muito fodas, tipo as que tocam no Studio SP, e chamar alguém maior para trazer um público? O Criolo, por exemplo. Fazer uma coisa menorzinha, no MIS, ou em algum pico assim…
– Bora fazer!”

Nessa época, o Coala já tinha um propósito bem claro, como explica Gabriel: “Existia/existe uma cena incrível na música brasileira que não é acolhida pelos canais tradicionais e que acaba ocupando um espaço menor do que merece. O Coala surgiu com a proposta de fortalecer essa cena e contribuir para trazer à tona esses artistas.”

Apesar do projeto já pensado, foram 2 anos para tirar a ideia do papel, período de amadurecimento de formato, conceito, proposta… “Corremos atrás de tudo ao mesmo tempo. Com muita raça, a coisa foi se desenrolando, muita gente legal se envolvendo e conseguimos fazer a primeira edição em março de 2014 com Criolo, Tom Zé, O Terno, Trupe Chá de Boldo, Charlie e Os Marretas e 5 a Seco.”

Coala Festival 2014 – Divulgação

Para aproveitar essa cena musical forte e nem tão explorada, a organização escolheu São Paulo como sede do Coala: “São Paulo é onde tudo acontece, nós vivemos aqui, conhecemos essa cena e esse público. Faltava um festival de médio porte focado 100% na música brasileira, então foi natural. Hoje sabemos que essa cena e esses festivais estão acontecendo pelo Brasil inteiro e há um bom tempo, o que é incrível.”

As atrações

Com esse foco total na valorização dos artistas nacionais, fica fácil de entender como o lineup é montado a cada edição, mantendo principalmente um olhar específico para a “nova música popular brasileira” – “Quando falamos em ‘nova música popular brasileira’, não nos referimos à tradicional MPB, mas a todos os gêneros que hoje compõem a música popular brasileira e aos artistas que estão trilhando esse caminho, seja ele dentro do rap ou do samba, por exemplo.”

“São artistas que ocupam ou têm o potencial de ocupar o espaço que chamamos de ‘midstream’, ou seja, que não são mais underground, mas que também não têm a visibilidade dos artistas mainstream. Buscamos montar um lineup que faça sentido musicalmente, que seja representativo/diverso e que seja capaz de vender ingressos, afinal o Coala é um evento pago.”

Olhando para o lineup da edição 2018, por exemplo, identificamos com facilidade esses artistas midstream citados por Gabriel, como a banda Francisco El Hombre e os cantores Johnny Hooker e Rubel.

Johnny Hooker – Divulgação

A programação do festival é pensada sempre seguindo uma ordem: primeiro é escolhida uma atração já conhecida, depois são intercalados shows de bandas mais novas com shows de bandas consagradas.

“A maioria dos festivais abre com bandas menos conhecidas e fecha com uma sequência de headliners. Nossa proposta é dar visibilidade para novos artistas e isso precisa estar refletido na programação. Com essa dinâmica, é comum o Coala ser o maior show da carreira de um artista até aquele momento e isso é muito bonito.”

Outra característica que o festival tem mantido é trazer shows especiais/inéditos, que o público verá ali em primeira mão, como a apresentação de Cícero + Marcelo Camelo, em 2016. Nessa edição, esse destaque fica por conta de Ilú Obá de Min + Elza Soares + Juçara Marçal, e Milton Nascimento + Criolo.

O Coala tem ainda uma característica única de unir gerações, fazendo “um movimento de passagem de bastão entre os grandes nomes da nossa música e os artistas que estão vindo, o que também é refletido no lineup”, lembra Gabriel.

Experiências para público e produção

Nem só de pensar um lineup de atrações músicas vive um festival. Com uma pegada bem urbana, o Coala tem como característica um público que frequenta outros festivais e, que por isso tem um olhar crítico sobre esses eventos. Assim, proporcionar uma experiência agradável a todos é a principal preocupação dos organizadores.

“A ideia é que a experiência seja muito fluida e confortável para o público. A palavra ‘festival’ carrega esse estigma de perrengue e queremos ser o contrário disso.”

Além dos shows, ocorrem outras experiências e manifestações culturais distribuídas pelo evento. “Cada ano buscamos pensar em coisas novas, mas algumas já são características do festival e ocorrem todo ano, como o lineup gastronômico, as diversas manifestações artísticas e a feira de micro-empreendedores.”

Além dessas experiências “fixas”, a cada edição novas propostas são introduzidas no Coala: “Em 2014 presenteamos pessoas aleatórias com discos de vinil, em 2015 fizemos um cortejo surpresa com o Bloco de Carnaval Amigos da Onça em um dos intervalos, em 2016 fizemos uma exposição de GIFs, em 2017 tivemos o icônico “Carlos Adão” pintando as pessoas, dentre outras tantas experiências que marcaram o festival.”

Coala Festival 2017. Foto: Rodrigo Pessoa

Já para a produção, as experiências vêm em forma de amadurecimento. É claro que fazer um evento desse porte não é simples, e os obstáculos vão se renovando com os anos. “Nos 2 primeiros anos, os maiores obstáculos foram convencer as pessoas que a gente teria capacidade para executar o festival e conseguir recursos financeiros; fazer um festival desse porte não é simples e é caro!”

“Sobreviver a esses 2 primeiros anos e conseguir fazer a terceira edição do festival, em 2016, foi o maior obstáculo que superamos e nossa maior vitória. De lá pra cá os desafios são outros e estão muito mais ligados à operação do evento do que a questões financeiras.”

O Coala Festival 2018

Para Gabriel, é indispensável que um bom festival apresente uma parte musical impecável, tanto em termos de curadoria quanto de qualidade de som. “As atrações precisam ser pontuais em relação ao cronograma. Além disso, a experiência tem que ser minimamente confortável em termos de acesso e alimentação”. E são esses alguns dos pontos que o festival nos promete.

A quinta edição do Coala é vista como uma espécie de formatura do festival. “É a conclusão de um ciclo e o começo de outro. É a primeira vez que vamos fazer 2 dias de festival e isso vem com uma responsabilidade/pressão muito grande.”

“À medida que o festival cresce, a expectativa das partes envolvidas (público, artistas, patrocinadores, imprensa, etc.) também cresce, e nossa ideia sempre é surpreender, o que não é fácil.”

Além do lineup de peso, com nomes como Gilberto Gil, Milton Nascimento + Criolo, Ilú Obá de Min + Elza Soares + Juçara Marçal, Mano Brown, Johnny Hooker, Rubel, Baco Exu do Blues, Luedji Luna, Academia da Berlinda, ATTOOXXAA, Francisco El Hombre, Xênia França e mais uma seleção finíssima de DJs e coletivos, o Coala receberá uma série de ajustes para resolver coisas que não funcionaram bem no ano passado: “Esse é o nosso foco agora, queremos ter um avaliação 5 estrelas”.

Entre as experiências “plus” do festival, Gabriel conta do Karaokê: “Vamos escolher algumas músicas de cada artista e passar a letra em estilo karaokê nos telões do palco para que as pessoas possam cantar juntas. Também estamos pensando em ações pré e pós evento, mas ainda não posso contar o que vai ser.

Coala Festival 2017. Foto: Rodrigo Pessoa

O futuro do festival é promissor, com planejamentos que envolvem não só o evento em si, mas a expansão na atuação da marca dentro do universo musical, além de um replanejamento do espaço: “Quem sabe, no futuro, inauguramos novos palcos que vão além da Praça Cívica do Memorial da América Latina”, diz Gabriel.

A gente só espera que o Coala Festival cresça ainda mais, mantendo sua essência tão inspiradora!

 

*Todas as informações sobre ingressos e o lineup completo da 5ª edição do Coala Festival, você encontra aqui.