18 de novembro de 2019/POR Franklin Costa

Se você acha que já ouviu de tudo, então prepare-se para conhecer o Le Guess Who? (LGW), um festival holandês cujo slogan não poderia ser mais adequado: “embrace the unknow” (abrace o desconhecido).

Curadoria colaborativa dá o tom do Le Guess Who?

Terminada a maratona do Web Summit, saí de Lisboa numa sexta-feira pela manhã rumo à Utrecht, cidade holandesa que fica uns 40 minutos de Amsterdã de trem. 

Utrecht é uma das cidades mais bacanas da Holanda. Ela não tem o hype de sua irmã mais famosa, mas tem lá os seus charmosos canais, a arquitetura peculiar com tijolinhos terrosos, pubs com uma cerveja diferente pra cada dia do ano, coffeeshops, lojas de discos hipsters e aquela energia que só uma cidade com forte presença de estudantes universitários têm. 

Utrecht também tem seus canais e todo um charme

Bateu uma bad logo na sexta. Chegando lá, descobri que o Nicolas Jaar havia se apresentado na noite anterior, em um novo projeto chamado AEAEA, com Patrick Higgins, guitarrista, compositor vanguardista de música clássica experimental e um dos artistas curadores do Le Guess Who? 2019

A estreia mundial de AEAEA, Live do Nicolas Jaar e Patrick Higgins. Foto: Jelme de Haas

Essa é uma das características desse festival que mais me motivou conhece-lo. O lineup de quatro dias – de quinta a domingo – é construído de forma colaborativa. A produção do LGW? convidou seis artistas como curadores do festival. Ou seja, esses artistas são diretamente responsáveis por co-criar o lineup de mais de 150 apresentações do evento. E, claro, dão o tom musical do festival.

Em 2019, os seis artistas curadores foram a cantora, compositora e diva do afrobeat Fatoumata Diawara; a norueguesa ícone indie do artsy-pop Jenny Hval; o produtor inglês, jornalista e DJ cavernoso de dub The Bug; a banda de rock califa-psicodélico Moon Duo; a fashion designer Iris van Herpen junto com o compositor Salvador Breed; e o artista norte-americano Patrick Higgins.

Le Guess Who? é um festival que explora sonoridades em fluxo, de nomes que influenciaram e estão influenciando os curadores e o time de organizadores do festival. Isso o torna tão rico. 

É um evento que, em partes, lembra o antigo Free Jazz Festival, que aconteceu na década de 90 no Rio de Janeiro e em São Paulo. Lá é possível ouvir pop contemporâneo, indie rock, punk e pós-punk, jazz, música esperimental, música eletrônica, folk, ambient, drone e muitos sons étnicos – em alguns casos – apresentadas pela 1ª vez ao vivo no lado ocidental do planeta.

Le Guess Who? 2019: cenário e locações únicas

Apesar de acontecer no outono, a temperatura do Le Guess Who era a de inverno. Pela noite, a sensação térmica nas ruas chegava a -3 Cº. 

Por isso, a maior parte dos shows são realizados em locais fechados (prepare-se para um tira-e-põe-casaco várias vezes na mesma noite). 

Além disso, é um festival integrado à cidade, e que acontece em diversos lugares diferentes como igrejas, teatros, clubs, galpões e um gigantesco e monumental complexo de salas de show – o Tivoli Vrendenburg – coração do LGW?.

Só neste prédio, de muitas escadas e andares, encontram-se seis (dos mais de 30) palcos do festival. Entre eles, o Grote Zaal (Grande Salão) , uma gigantesca sala de concertos, com capacidade para 1.717 pessoas sentadas e um pé direito que passa facilmente dos 10 metros de altura. Isso, repito, dentro de um único prédio!

Além dos espaços voltados para as apresentações musicais, o LGW? ainda traz em sua programação exposições de arte, workshops, palestras e sessões de cinema em restaurantes, museus, galerias e cafés. Por fim, durante as manhãs e tardes do fim de semana, os organizadores ainda produzem “mini-festivais” abertos ao público, o Mini-LGW?, em regiões mais afastadas do centro de Utrecht.

O cenário onde acontece o LGW? faz toda a diferença para a experiência do festival. A qualidade do som, o conforto das salas com cadeiras (para os shows mais introspectivos), as opções de comida (etíope, coreana etc) e bebidas (excelentes IPAs locais), tudo isso, somado ao espectro musical de sua curadoria, faz com que esse festival receba um público mais maduro e abertos à experimentações artísticas.

Teve até DJ set surpresa Bjork

Um dos workshops do festival – e um dos artistas a expor no evento – foi James Merry, diretor criativo e marido da diva islandesa Björk. Na sexta-feira que cheguei no evento, ela ocupou uma das salas do Tivoli para um DJ set surpresa. 

Não vi, e só fui saber dessa apresentação no dia seguinte, mas também não sairia da sala que levei meia hora esperando pra entrar naquela noite.

Esse é um ponto que vale mencionar: na sexta e sábado, as salas do Tivoli (e a igreja Jacobikerk) apresentavam filas. Tem que ter paciência… Uma hora você vai entrar, mas recomendo chegar cedo se quiser assistir um show completo.

Não vi a Björk (e nem o Nicolas), mas conheci muitos novos artistas que passei a seguir feliz no Spotify. 

As 10 descobertas musicais do Le Guess Who? 2019

O baterista de Chicago Makaya McCraven, que encheu de jazz, beleza e solos catárticos a grande sala do Tivoli na abertura da noite de sábado.

A neozelandesa esquisitíssima, dona de um indie pop fofo e divertido, Aldous Harding

Jah Shaka, jamaicano, rastafari e um dos DJs pioneiros responsáveis por trazer a cultura Dub (e dos soundystems) para a Inglaterra nos anos 70.

O dubstep, grime e graves apocalípticos do produtor inglês, jornalista, DJ e curador do LGW? 2019 The Bug.

O live classudo do Djrum, acompanhado de um piano cauda longa, uma violoncelista clássica e uma vocalista que parecia ter saído de um catálogo de moda das raves dos anos 90.

A divertida e surreal banda japonesa Minyo Crusaders, que encheu de calor a Grote Zaal com uma sequencia de hits e gêneros da música latina.

A música ambiente cabeçuda, introspectiva e espectral da canadense Sarah Davachi, que preencheu uma das igrejas em uma apresentação minimalista e mística. 

O carismático, animado e beijoqueiro cantor etíope Ayalew Mesfin & Debo Band, que por 20 anos foi proibido de sair do país e, no LGW?, apresentou-se todo saídinho na Europa pela 1ª vez.

A hipnótica, contagiante e poderosa apresentação da banda senegalesa Ndagga Rhythm Force, embalada pelas batidas eletrônicas do produtor alemão Mark Ernestus

A tempestade sonora encarnada em forma de mulherão da porra, guitarrista, cantora, compositora e também curadora convidada do LGW? 2019 Fatoumata Diawara, que personificou a melhor versão ao vivo de Sinnerman, de Nina Simone, num dos – senão o – momentos do festival. 

Ainda teve o trio da “Nova Batida de Lisboa” do selo Príncipe RecordsDJ Firmeza, Nídia e DJ Marfox – quebrando tudo no clube BASIS, numa programação assinada pelo prestigioso portal FACT, que vale destaque também como um dos pontos altos do evento.

Diversidade nos palcos, mas fora das pistas

Assim como observei no festival dinamarquês Roskilde, a diversidade vista nos palcos raramente estava presente nas pistas. Havia um claro gap entre uma massa de pessoas brancas, altas e de corpos esguios, com todo o espectro de raças, ritmos e corpos escalados para a programação do festival. 

Para apenas um rapaz latino americano como eu, ficou uma sensação de super valorização do exótico. Ou o bom gosto burguês dos privilegiados do 1º mundo. 

Em um momento, ao lado de fora, fumando um cigarro, um trio de holandeses me convidou para conversar com eles. Simpáticos, disseram ficar extasiados com o grupo de japoneses Minyo Crusaders que cantavam música latinas. Uma das pessoas me disse, em tom de espanto: “nunca vi tocarem um triângulo como instrumento dessa forma”. Percebi que ali, naquele momento, que eu me esforçava para dissociar aquela apresentação de um belo exemplo de apropriação cultural (que os japoneses, provavelmente, entendem como reverência estética), os Holandeses locais, que já estiveram em diversas edições do festival, estavam simplesmente curtindo um tipo de som vindo do outro lado do mundo (não importa qual).  

Além disso, o Le Guess Who? é um festival com uma proposta artística elitista, com muitos artistas que precedem uma pesquisa. Não é um festival de música descompromissado de “diversão pela diversão”, embora haja sim por lá muita música pop e (até) comercial. Mas a experiência do festival como um todo se assemelha mais à uma grande exposição de arte sonora e vanguarda (com direito, claro, à performances “pop-art”).

Independente de críticas, o festival entrega o que promete. Um mergulho profundo no desconhecido para exploradores de novas frequências sonoras.