24 de janeiro de 2019/POR Daniel Tambarotii

Nesta terça, após o anúncio oficial do line-up 2019 do Dekmantel Amsterdam, a DJ chilena Valesuchi fez um post em que atacou os produtores do evento holandês. A bronca de Vale era não ter um artista sequer da América Latina na edição principal do evento, que rola anualmente na capital holandesa, mesmo depois de a trupe do Dekmantel ter excursionado e promovido eventos por várias cidades de países latino-americanos nos últimos anos, e também ter feito duas edições muito bem sucedidas em São Paulo, em 2017 e outra em 2018, (não foram poucas as juras de amor dos holandeses à cidade de São Paulo, por exemplo).

Foto: Divulgação

A chilena foi dura nas declarações e, entre outras chineladas, chamou os holandeses de “racist colonizers”, deixando no ar que o festival teria pousado aqui pensando só em dinheiro, e deixando os “colonizados” de fora do bem-bom do evento principal lá em Amsterdam – nem um slotzinho para quem reside abaixo da linha do Equador.

Foto: Reprodução/ Instagram

O post causou reação imediata entre quem frequenta e trabalha com festivais/festas/clubs. A grande maioria dos comentários era de apoio às declarações de Valesuchi.

A galera do Dekmantel respondeu no próprio post da Valesuchi: “Nunca tivemos a intenção de apenas levar nosso nome a outras partes do mundo para ganhar dinheiro ou sair bem na fita”, eles começam na réplica. Aqui vale contextualizar que o “sair bem na fita” é culturalmente falando, já que é bacana pagar de cosmopolita e desbravador cultural em países fora do eixo EUA-Europa.

A produção continua a resposta fazendo o “mea culpa” e pedindo desculpas: “Nossos horizontes aumentaram significativamente com as colaborações (na América Latina). Foi muito bem apontado que não incluímos nenhum artista latino no line-up de 2019. Pedimos desculpas. Está claro agora que convidar artistas da América Latina para a nossa edição europeia é parte essencial da troca cultural e precisamos melhorar em estreitar tais laços”.

Foto: Reprodução/ Instagram

A briga é boa e muito pertinente, pois levanta uma questão maior e muito polêmica: a da presença de festivais gringos em solo nacional, muitas vezes sem o cuidado ou investimento das edições principais, com a maior pinta de “neocolonização cultural”: querem aterrissar para ganhar hype, dinheiro e deixar espelhos.

Ao longo de todo o dia de ontem, tentei contato com a Valesuchi para esclarecer alguns detalhes de seu post que me fizeram franzir o cenho como “local slots” e “non-negotiable fees”, termos usados quando se referiu à contratação de artistas locais para os eventos do Dekmantel pela AL, e também saber o que ela achou da resposta oficial da galera de Amsterdam, mas a DJ não respondeu às minhas tentativas de contato.

Já a produção brasileira do Dekmantel foi clara e direta – não ia fazer comentários “sobre algo que não tem absolutamente nada a ver com sua capacidade decisória ou competência curatorial”.

Mauricio Soares, ex-diretor de marketing do Tomorrowland no Brasil, me disse que acha a “treta” saudável – e inevitável: “É importante que os eventos estrangeiros percebam que os países que visitam desejam se ver representados para além dos local slots das edições fora dos seus países de origem. É essencial que percebam que não dá pra bancar indefinidamente a ‘nave-mãe’, que chega, pousa e depois vai embora como se nunca tivesse passado por aqui. Se você promove uma marca para uma audiência global, é preciso igualmente atender aos anseios de uma audiência global”.

Os exemplos de investidas gringas no mercado brasileiro de festivais é recheada de exemplos de sucesso e também de trapalhadas. O próprio Dekmantel fez duas edições muito boas por aqui, a primeira em 2017 no Jóquei, e em 2018 no Playcenter. A edição deste ano ainda não tem data confirmada.

Foto: Divulgação

O Ultra teve que mudar de lugar três vezes na edição de 2016, e o Creamfields nunca pegou aqui como na Argentina, por exemplo. O Tomorrowland fez duas edições de sucesso estrondoso de público e depois não apareceu mais. Já a história do Sónar é meio montanha-russa – uma edição espetacular em 2004 (sob a alcunha de Sónarsound). Uma mais fodona ainda em 2012 (aquele line-up vai ser lembrado por décadas), e uma incursão pífia, esquecível em 2015.

Nos países vizinhos, como Colômbia e Argentina, o festival catalão mandou muito pior, com pouca ou nenhuma atenção para produção e infra-estrutura de maneira geral.

A gente sabe que não é nada fácil transpor um festival desse quilate para outro país, os problemas de adaptação são muitos e bem variados: atrações, locações, custos, expectativas, tudo pode jogar contra. Mas o que dá para perceber, e as duas edições de sucesso do próprio Dekmantel em solo nacional provam isso – edições que foram produzidas e realizadas com mão de obra local, contratada aqui e que deu conta de decoração, som, luz, produção e infra-estrutura em geral -, é que o mercado brasileiro parece ter maturidade suficiente para andar com as próprias pernas. Taí o Novas Frequências, por exemplo, festival criado por Chico Dub que tem seu foco em música eletrônica experimental (notadamente mais “difícil” de vender para patrocinadores), ocupa vários palcos e espaços do Rio durante uma semana, tem seu line-up recheado de atrações realmente importantes e cresce a cada ano, ganhando mais respeito e notoriedade. Tudo isso sem precisar pedir a bênção a nenhuma marca gringa.

Como é recomendável ouvir todos os lados possíveis num assunto tão polêmico, também entrei em contato com dois dos fundadores do Dekmantel Amsterdam para repercutir este assunto. Até o momento da publicação deste texto, eles não haviam respondido. Se entrarem em contato, a gente publica aqui a perspectiva dos caras.