20 de abril de 2014/POR Carol Soares

O meu primeiro festival de música foi o Skol Beats, no início dos anos 2000. Desde então, já gastei muito sapato, passei alguns perrengues, mas considero hoje saldo positivo.

Coisas do destino, o primeiro projeto que participei na Mana foi sobre festivais de música no Brasil. Logo após o final do projeto, fomos ao Lollapalooza Brasil para conhecer o festival brasileiro preferido da maior parte do público do nosso estudo.

Logo me questionei se, depois de todo esse processo, seria possível participar de um festival da mesma forma? Como me afastar das experiências e opiniões que ouvi nos últimos meses? E como (des)combinar tudo isso com minhas próprias percepções e opiniões?

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Como avaliamos os festivais brasileiros?

Em nossa pesquisa, a telefonia foi considerada o item pior avaliado por nossos entrevistados, seguida por banheiros e filas. Esses itens foram considerados sinais fortes, pois geralmente afetam de forma parecida o maior número de pessoas.

Por outro lado, é claro que uma escolha pode interferir negativamente em toda nossa visão da experiência final. Um atraso para sair de casa e tentar pegar o transporte ou entrar no festival no horário de pico, não combinar alternativas de encontro quando o sinal de celular é ruim, comprar bebida ou ir ao banheiro ao lado do palco que está acontecendo o show mais esperado do evento, querer atravessar o festival em tempo recorde para ver todos os artistas ao mesmo tempo…. Esses são alguns exemplos que apareceram como influenciando de forma positiva ou negativa as diferentes experiências.

Por outro lado, transporte, distribuição dos palcos e das atrações, horários das apresentações, por exemplo, apareceram tanto como experiência positiva para uns como negativas para outros, dependendo de como as escolhas foram feitas.

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Percepção geral do público sobre serviços e estrutura dos festivais brasileiros (survey online realizado em 2015 com mais de 500 frequentadores de festivais no Brasil)

Por dentro do Lollapalooza Brasil

No caso do Lollapalooza, baseado em tudo que vimos e ouvimos nos últimos meses, a parceria com o sistema de transporte público, a alimentação, as ativações de marca, a escolha e distribuição do line up foram pontos que apresentaram significativa melhora a partir do que havíamos detectados como pontos fracos nos festivais brasileiros.

Por outro lado, a escolha do local, a distância entre os palcos, as filas e o tumulto na saída foram questões mais relativas, que geraram opiniões divergentes. Distância é uma medida relativa, não dependente apenas da distância física, mas da disposição, da valorização (o que se ganha ou o que se perde caminhando tanto) e até mesmo da idade.

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Festivais e Shows

Uma outra questão importante é que não temos tradição de festivais de música no Brasil. O Rock in Rio, festival pioneiro no país, consagrou-se em 1985 por uma façanha inédita no país: trazer de uma só vez vários grandes artistas internacionais, até aquele momento nunca vistos no país.

Nenhum festival tomou sua posição. E o Rock in Rio virou “o maior festival do mundo”. Desde então, vários festivais tentaram se estabelecer no país, com edições memoráveis – Free Jazz Festival, Tim Festival, Skol Beats ou Planeta Terra. Mas o fato é que tradicionalmente, o brasileiro vai à shows e não à festivais. O festival ainda é visto no Brasil como a soma de vários shows. E daí o custo/benefício de um evento desses ser “quanto maior o número de artistas que eu gosto em um menor espaço de tempo e pelo menor preço”.

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Para muitos, o line up aparece como um item importante para a decisão de ir ou não a um festival. Mas o que observamos é que a experiência e a companhia dos amigos são, de fato, os fatores importantes para a satisfação do evento.

O que festivais como o Lolla nos mostra é que a experiência de um festival está muito além da de consumir um (ou vários) show(s). O que percebemos ao longo de todas as conversas que tivemos com frequentadores de festivais no Brasil – e na nossa própria experiência – é que quem vai apenas para ver um ou outro show, muitas vezes acaba se decepcionando. Normalmente os shows de festivais são mais curtos, não têm bis, é necessário esperar outras bandas se apresentarem, etc. Quem mais se diverte nos festivais são aqueles que vão ver seus artistas preferidos, mas também aproveitam da companhia dos amigos, estão abertos a conhecer pessoas novas e viver a atmosfera do festival.

Palcos e atrações diferenciadas, ações divertidas e inteligentes de patrocinadores, eventos paralelos, feira de culinária, amigos na mesma sintonia, um dia bonito, fazer a escolha certa de estar no palco certo no show perfeito… O conjunto de tudo isto é que faz um festival inesquecível.

A trabalho ou à diversão, que venham os próximos.