Review: O Gigantesco Kendrick Lamar, a "Volta Por Cima" Do Radiohead E Outros Destaques Do Coachella - Pulso

Review: O Gigantesco Kendrick Lamar, a “Volta Por Cima” Do Radiohead E Outros Destaques Do Coachella

Fui ao Coachella em 2011 e, como procuro sempre conhecer novos festivais, não estava no meu radar voltar tão cedo.

Até o anúncio do belíssimo lineup de 2017, que trazia entre os headliners o Radiohead, banda que há mais de 20 anos concilia sucesso de público com aclamação crítica (e da qual sou fã) e o show de lançamento do novo álbum do maior rapper da atualidade, Kendrick Lamar.

Isso pra ficar apenas entre as principais atrações.

Parti de novo paro o deserto e tive zero arrependimento. Algumas impressões do que vi em cada um dos três dias:

DIA 1

– Duas horas da linda melancolia do Radiohead. Do começo, com a triste Daydreaming, ao final, com uma versão mais torta (!) de Idioteque. Depois dos troubles técnicos da primeira semana, Yorke, Greenwoods e cia mataram a pau. Exit Music, The Gloaming, No Surprises, Paranoid Android, Reckoner, My Iron lung, até Fake Plastic Trees teve… Tracklist para deixar o fã aqui ultra feliz (!?)

– A enérgica molecada da Jagwar Ma reprocessando Primal Scream, Underworld e outras tantas eletronices rock n roll (ou roquices eletrônicas)

– Apresentação mediana dos Avalanches. Ouvi tanto o primeiro álbum que não consegui curtir uma banda “orgânica” tocando um disco calcado em samples. My Fault de ponto alto, uma versão do hino “The Guns of Brixton”, do Clash.

– Consegui processar muito pouco do show do refinado Bonobo. O sol embotou o raciocínio. Som para temperaturas mais amenas.

– O talentoso Father John Misty veio com uma belíssima banda, com sopros, cordas, pianos mas precisa de alguém que lhe dê o bizu de que tá caindo para o brega em vários momentos.

– Em um palco menor e em horário mais nobre os meninos do Glass Animals poderiam fazer bonito.

Foto Divulgação

DIA 2

– A impressionante popularidade e resposta da plateia ao show do rapper Future. Geral no bounce, pulando, cantando os refrões e filmando freneticamente. Com mais de uma dezena de hits pra tocar em 50 min, alguns vieram em versão curtíssima. Mas foi o suficiente pra fazer todo mundo cantar junto fanfarronices como I’m On a New Level e I Woke Up In A New Bugatti, com refrões de uma palavra (“Wicked, Wicked, Wicked”, “Jumpman, Jumpman, Jumpman”) ou o megahit Fuck Up Some Commas.

O rapper está no auge da popularidade, em muitas faixas impulsionado pelas produções mega competentes de metro boomin (segundo o beatmaker Flying Lotus, deveriam ser metro boomin feat. future). Diversão garantida.

– Bailão sinistro do Gucci Mane. Com público visivelmente menos heterogêneo que o do Future, o show do rapper é porrada full time. Grave tão potente que chegou a dar pau no som em alguns momentos. E rappers convidados, hits de outros artistas, clima de festa com alguma tensão. Soa repetitivo depois de algum tempo.

– Coube a Bon Iver tocar depois do Future no palco principal. Show baseado no corajoso disco “22, A Million”. Lançado depois de dois lamentosos (num bom sentido) álbuns, 22 tem programações de batera, ruídos e a voz de Justin Vernon ultraprocessada. Começou maravilhosamente bem com 10 Deathbreast e a linda 715 creeks (cantada a capela por uma só voz submetida a efeitos que a “transformam” em umas cinco diferentes).

Mas depois de meia hora fica um pouco sonolento. Show pra assistir com calma, em um lugar menor, não entre shows de Future e Lady Gaga.

– O baixista Thundercat entrando com atraso e tendo problemas com o som. Prenúncio de derrota. Mas a habilidade de Thunder, do batera e do tecladista superaram e muito a adversidade.

– Quinze minutos da eletrônica com um quê de post-rock do menino Floating Points. Synths, batera, guitarra e baixo. Viagem emoldurada pelas palmeiras, montanhas e o céu azul do deserto. Pena que não deu pra chegar mais cedo.

– Festival tem dessas coisas. Das 3h30 de discotecagem com Four Tet, Daphni e Floating Points (três talentosíssimos produtores), só deu pra ver 40 minutos de um set disco, com algum house. Coisa séria.

Foto Divulgação

DIA 3

– Durante a maior parte da apresentação, Kendrick Lamar está sozinho no palco (ou numa plataforma no meio da plateia) comandando cerca de 100 mil pessoas. Presença de palco, perfeição na cadência, discurso politizado, musicalmente ousado. Coerente ser ele o cara pra fechar o festival.

Começando com DNA – “I Got Power, Poison, Pain And Joy Inside My DNA” (frases fortes sobre uma base agressiva) -passando pelo refrão-hino “Nigga, We Gon’ Be Alright”, o hit “Bitch Don’t Kill My Vibe”, até chegar no maravilhoso e pegajoso “Sit Down, Be Humble”.

Show intenso nos pequenos intervalos entre os “atos”, um filmete comédia com temática kung-fu (impossível não lembrar dos samples de faixas do Wu-Tang Clan) intercalado com a perturbadora frase “Ain’t Nobody Praying For Me” sussurada em looping humor e protesto hip hop.

– A encantadora presentação de Hans Zimmer, com umas 50 pessoas no palco, entre coro, orquestra, banda e cantores. Para quem, como eu, não conseguia associar a trilha ao filme a que ela correspondia, ficava a diversão de imaginar em que tipo de cena aquela música se enquadraria. O telão não dava dica. Melhor assim, deixa a mente trabalhar.

– O sensacional vocalista do Future Islands, músicas de fácil digestão e um frontman de voz poderosa e estilo sofredor, desengonçado e performático. Podia durar muito mais que eu continuaria assistindo.

Kaytranada tocando suas produções e remixes de baixo pulsante entremeadas a faixas disco (clara influência no ótimo álbum 99.9%). Clima excelente de festa no som. Mas estava difícil dançar na (grande) tenda superlotada.

Foto Divulgação

**

À espera do lineup de 2018 para ver se vale voltar pela terceira vez ao deserto.

Marcos Ramos Por Marcos Ramos

Viciado em festivais de música, mas também é jornalista (coordenador de comunicação de crise da Petrobrás), DJ e microcervejeiro.

Posts Relacionados