Life Festival e a Experiência de Trabalhar em Festivais na Irlanda - Pulso

Life Festival e a Experiência de Trabalhar em Festivais na Irlanda

Praticamente todos os festivais de música da Irlanda (e muitos outros na Europa) são abertos para inscrições de Voluntários e Produtor (veja aqui o post Como Ser Voluntário em um Festival).

Isso é genial para os dois lados. No ponto de vista do festival, além de aumentar a sua comunidade, o evento também supre pequenas – mas importantes – demandas dos mais variados tipos de serviços com um custo de mão de obra baixo. No ponto de vista das pessoas que se inscrevem, essas podem ganhar os seus ingressos, além de camping, refeições, acessos e claro, aprendizado.

No meu caso, o foco foi me envolver ao máximo com o intuito de ter a melhor experiência possível para absorver cada detalhe da produção. Foi por isso que nas entrevistas com as Staff Managers eu me inscrevi como voluntário e produtor, o que resultou em trabalhar em média 9 horas por dia durante 4 dias em diferentes posições.

É interessante frisar a diferença entre o Voluntário e o Produtor. O Voluntário  (voluntário) costumam ser pessoas que gostariam de trabalhar algumas horas por dia em troca do ingresso, em funções “mais simples”. Já o Produtor são pessoas que estão iniciando a sua carreira no showbiz e possuem algum histórico de produção, por isso as funções e as cargas horárias são diferentes e você ganha pelas horas trabalhadas.

Por conta disso, tive a oportunidade de conversar com gente que todo verão se inscreve para ser voluntário em festivais de música por não ter dinheiro para pagar pelo ingresso. Mas também com produtores artísticos, produtores de palco e cenógrafos que trabalham com pequenas gigs, pubs e eventos e que vão trabalhar nesses festivais para aumentar o seu conhecimento e know-how.

Foto Divulgação

As duas comunidades são grandes. Geralmente as faculdades de música, eventos e produção fazem parcerias com esses festivais para os seus alunos trabalharem lá.

Life Festival

O Life Festival (hyperlink) é um festival de música eletrônica que aconteceu no final de semana 26 a 28 de Maio na região de Mullingar, Irlanda. É realizado no Belvedere House Gardens, um imenso quintal de um castelo com grama verde, florestas encantadoras de cena de filme e lagos, localizado no centro da Irlanda, há 1 hora de distância da capital Dublin.

O evento recebeu cerca de 9.000 pessoas que acamparam por 3 dias e puderam curtir 6 palcos com diferentes vertentes da música eletrônica como Techno,House, Disco, Dub, Psy, Garage, Trap entre outros timbres mais Pop.

Foto Divulgação
Foto Divulgação
Foto Divulgação

Os Palcos

O que mais me chama atenção nos palcos daqui são as imensas tendas de circo que dão uma atmosfera única em cada ambiente. Algumas podem receber até 3 mil pessoas dentro delas! O isolamento acústico dessas tendas é fantástico e também apresentam uma boa resistência contra ventos e chuvas.

Apenas um palco se diferenciava dos demais. Era localizado dentro de uma pequena floresta e se chamava Croncret Jungle. O motivo não é apenas porque recebia um paredão de Sound System Function 1 e tocava raridades do dub, dubstepp e dancehall. Foi porque o projeto de cenografia foi criado em conjunto de vários artistas plásticos da região, o que deu uma cara bem inimista para o local.

Foto Divulgação

O nome do palco que trabalhei era Toast, mais tarde fui descobrir que é o selo de uma festa de Disco, Soul e House Music em Dublin.

Além dos palcos, o festival contava com alguns brinquedos vintages de parque de diversões, food trucks, lojinhas hipsters e algumas construções alternativas com pallets em forma de concha que possibilitava as pessoas entrarem e ficarem lá para descansar,comer e claro, se conhecerem.

Um dos melhores momentos que vivi foi em uma dessas conchas que ficavam de frente para o lago. Estava sozinho e algumas pessoas começaram a entrar e depois de um longo tempo conversando, fomos curtir um pouco do festival juntos. Achei uma boa ideia esse tipo de intervenção para as pessoas relaxarem e acabarem se conhecendo.

Banheiros

Os banheiros que costumam sempre serem alvo de críticas, neste festival estavam exemplar.

Além de serem espalhados pelo festival, no banheiro masculino foram construídos longos mictórios, além de estações individuais e banheiros químicos.

No banheiro feminino, todos os químicos possuíam álcool gel, espelho, papel e limpeza a todo momento. Mesmo com chuva, não reparei nenhum problema.

Bebidas

Mas como nem tudo é perfeito, o que acontece em alguns pubs pelo país, refletiu no festival.

Não sei o motivo disso e também não sei o impacto, mas eles não trabalham com fichas, comandas, pulseiras com chip ou qualquer forma de caixa onde você pode comprar antes o que vai consumir.

O resultado é o mesmo, filas demoradas para comprar bebidas porque o/a atendente do bar precisa servir e entregar a bebida e além disso, dar o troco ou passar cartão. Talvez seja para controlar esse povo que bebe cerveja igual água.

Todos os bares encerravam as suas atividades às 00h e abriam no dia seguinte às 16h. Após esse horário normalmente as pessoas iam para o camping e buscavam suas próprias bebidas para consumirem no festival no período da madrugada.

Segurança

No quesito segurança, é possível notar diversas peculiaridades.

Por causa dos atentados terroristas que ocorreram recentemente em Londres e Manchester, uma estação da Polícia (Garda) foi montada no local para dar suporte nas revistas e também para vigiarem todo o canto do festival.

Além disso, pude notar a preparação dos bombeiros e seguranças andando pelo evento altamente equipados e sinalizados.

Ao mesmo tempo que eles trabalhem nisso com perfeição, há um fato curioso. O serviço de segurança em festivais também é oferecido para jovens e adolescentes como trabalho de verão. Para ter ideia, o único segurança que estava trabalhando no mesmo palco que eu, era um menino de 17 anos que estava em seu primeiro festival da vida! Ele estava trabalhando há umas 15 horas sem se alimentar e se hidratar.

Os seguranças bem equipados ditos lá em cima ficavam nas áreas mais movimentadas por exemplo entrada principal e mainstage.

O Trabalho – Highlights

Como eu disse, foram 4 dias de trabalho  em diferentes posições.

No dia 25.05 quinta-feira após me acomodar no staff camping na parte da manhã, começamos um tour pelo espaço com a Staff Manager. Depois, fizemos uma refeição e começamos o primeiro trabalho que foi de espalhar grades pelo evento e se preciso, posiciona-las em formato fila caracol. Após isso, tive que cobrir todas as pontas de parafusos que saiam pelos postes de luz instalados, com espuma e fita.

No dia 26.05 sexta feira, o meu horário no palco Toast só começava ás 20h. Então fiquei no camping conhecendo meus vizinhos de barraca. Eram uma turma de 35 pessoas viajando juntos, para cozinhar em uma empresa de foodtruck. Eles iam passar por 17 festivais em 3 meses!

Finalmente, após conhece-los, fui para o palco Toast ser o assistente do Stage Manager. O Steve era proprietário da festa Toast em Dublin e recebeu os staffs muito bem.

Eu pude ajudar ele a fazer as trocas de Djs, enrolar e armazenar cabos, manter a segurança do espaço, fazer reparos na cenografia e dar toda assistência para os artistas. Esse turno acabou ás 4h30 da manhã.

Dia 27.05 Sábado foi o dia que eu tive a noite livre e deu para curtir.  Continuei trabalhando no palco Toast ajudando o Steve, mas dessa vez eu comecei ás 12hr e terminei ás 19h.

Dia 28.05 Domingo, trabalhei por 4 horas no Car Parking, uma região do estacionamento onde tinha um fluxo de carros para pessoas que estavam chegando para curtir o último dia de festival e famílias ou taxis que iam buscar pessoas no festival.

As outras 4 horas, que já eram no fim do festival, eu trabalhei no acesso ao Main Camping. As funções eram apenas checar as pulseiras e parar o fluxo de pessoas para os carros passassem, já que tinha que atravessar uma rua.

Após essa última função, voltei ao camping e fiquei algumas horas pensando se iria voltar naquele momento ou no outro dia de manhã. Nesse momento, acabei conhecendo alguns brasileiros que me salvaram e fui embora naquele exato momento. Estava muito cansado.

Então…

Se você se interessa em trabalhar nesse mercado, não importa a região que você esteja morando ou apenas passeando, podemos sempre aprender com novas experiências! Não apenas aprender, mas também perceber o quão belo são os eventos brasileiros com suas qualidades únicas! Na mistura das diferentes experiências é que mora a criatividade e a inovação.

Renato Zanon Por Renato Zanon

Fundador da Ampi Produtora, start-up que desenvolve estratégias digitais para artistas e bandas e também produz eventos culturais e de entretenimento. Estudou Show Business na On Stage Lab e formou-se em Administração pela ESPM-SP. Fissurado por festivais de música, festas, bateria e música em geral. Atualmente mora em Dublin estudando inglês e explorando o universo dos festivais.

Posts Relacionados