4 de maio de 2015/POR Franklin Costa

A Bégica é mesmo um país curioso. Foi lá que nasceu a batata frita, os Smurfs, o saxofone e o Jean Claude Van Damme. Os belgas tambem são conhecidos por produzirem os melhores chocolates e cervejas da mundo, além do maior festival de dance music da atualidade, o Tomorrowland. Mas sua última contribuição para o mundo, uma das mais relevantes, pouca gente sabe. Ainda. É que ela acabou de acontecer.

Os Belgas – em parceria conosco, Brasileiros – criaram o primeiro grande festival da América Latina. Um encontro de nações à altura da Copa do Mundo. Com a diferença que – no Tomorrowland Brasil – não havia competição. Pelo contrário. Compartilharam, em comunhão, a mesma pista.

Comunhão é a palavra que melhor resume o que vi acontecer nestes 4 últimos dias de festival. Segundo o dicionário: “comunhão é o ato de realizar ou desenvolver alguma coisa em conjunto. Harmonia no modo de sentir, pensar e agir. Em que há união ou ligação; Compartilhamento”.

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Argentinos, Chilenos, Bolivianos, Peruanos, Mexicanos, Uruguaios, Paraguaios e Brasileiros de muitos estados – só eu conversei com pessoas do Acre, Pernambuco, Paraíba, Amazonas, Brasília, Rio Grande do Sul e Paraná – além de belgas, ingleses, australianos, chineses, japoneses e norte-americanos. Todos compartilhavam pela manhã, em clima de paz e união, as poucas sombras sob o sol castigante da Fazenda Maeda, as filas para compras de comidas e os múltiplos adaptadores para carregar celulares, espalhados pelos pontos de luz dos postes do festival.

Pela noite, quando a temperatura caía drasticamente (de 30º para 13ºC), dezenas de milhares de pessoas amontoavam-se em frente ao apoteótico palco principal. Era como presenciar um gigantesco e uniforme organismo vivo, dançando e cantando em hino, como se fizessem parte de uma única tribo: a nação Tomorrowland.

A Música Eletrônica Volta a Estimular Debates

Se as nações que reuniam-se pelo festival esqueceram sua rivalidade em campo, debates calorosos nas redes sociais dividiam os fãs da música eletrônica.

De um lado, os defensores da “melhor música sob ponto de vista técnico e artístico” (leia aqui), composto pela velha guarda da música eletrônica, saudosos do Skol Beats Festival (como acontece com falecidos, de uma hora para outra, críticos do passado passaram a elogiar o evento). Do outro, a comunidade de super fãs do Tomorrowland, uma legião de dezenas de milhares que lotavam o mainstage do evento, cantando juntos samples de White Stripes e Queen, cultuando DJs como astros do rock.

Discussões à parte, até nisto o festival teve mérito: voltar a trazer debates calorosos sobre um gênero musical distante dos holofotes da grande mídia.

Ainda Poucos Patrocinadores, Mas Bem Contextualizados

Além da Skol, também estavam lá o energético Fusion, Doritos, Absolut e Mastercard. Diferente do Lollapalooza, as marcas não disputavam atenção no Tomorrowland. Elas faziam parte da paisagem, cenografadas como o festival, complementando o mundo de magia (embora com filas do mundo real).

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De forma geral, Skol e Fusion foram as que mais se destacaram. A primeira, pela disputada distribuição de copos temáticos (todos – sem exceção – queriam levar para casa uma recordação do primeiro Tomorrowland no Brasil). A segunda, por distribuir milhares de bastões luminosos que se destacavam como estrelas caídas à noite em meio a multidão diante do mainstage.

DreamVille, Uma Experiência Sem Igual no Brasil

Aproximadamente 18 mil pessoas estiveram acampadas no festival. O último – e primeiro grande festival – a propor o modelo de Camping, o SWU, realizado no mesmo local, recebeu cerca de 6 mil pessoas. Havia toda uma expectativa sobre o camping: vai dar certo? Muitos estavam receosos. Mas quem pagou para estar no DreamVille, área destinada ao acampamento, ficou satisfeito com a experiência.

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O Dreamville não só foi o maior camping já realizado em um festival Brasileiro, como também foi o grande destaque do Tomorrowland Brasil, segundo nossos entrevistados. Sem exceção, dos mais de 60 entrevistados pela equipe de pesquisa Pulso, todos se surpreenderam com a organização, banheiros e estrutura. Poucos furtos foram registrados dentro do camping e, apesar dos altos preços das comidas e bebidas, quase não escutamos críticas. A prova: todos que conversamos no camping, ao longo dos 4 dias de festival, sem exceção, disseram que voltariam ano que vem, novamente acampados.

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Conversamos com um dupla de mulheres que dividiam a mesma barraca, ambas na faixa dos 40 anos de idade, acampadas no espaço Regular (o mais barato dos acampamentos), mas que haviam comprado ingressos Confort (o mais caro do festival). “Queríamos ter ficado no camping mais confortável (Lodge), mas quando fomos comprar, já não havia disponibilidade. Somos as “tiazinhas” deste camping, mas não queríamos ficar em hoteis ou fora do festival… faz parte da experiência de estar aqui”, responderam quando questionadas sobre porque estavam ali.

Como a maioria das pessoas acampavam pela primeira vez, no entanto, muitos estavam despreparados para a experiência. No mercado do Dreamville, amontoado de lojas que vendiam roupas, acessórios e produtos para os “residentes”, conversamos com a única vendedora de casacos, que orgulhava-se de ter vendido seis jaquetas (de aproximadamente R$ 500,00 cada) em duas horas, já no segundo dia de festival. O dono da única “farmácia” do mercadinho, viu seu estoque de protetores solares e relaxantes musculares rapidamente chegarem ao fim. Nem ele estava preparado para essa demanda.

Quando a Magia Se Choca Com a Realidade

A primeira edição do Tomorrowland Brasil enfrentou problemas operacionais. O principal deles referente ao acesso de entrada e saída do festival. No segundo dia, ônibus de excursões, vans e autóveis levaram cerca de 3 horas somente para sair da fazenda Maeda. Outra reclamação constante foi o longo tempo de espera nas filas para retirada das pulseiras que davam acesso ao festival.

Os portões do evento atrasaram para abrir na sexta, consequencia do atraso de montagem sofrido pelo evento após um incêndio no porto de Santos ter atrasado uma semana a entrega de 20 contâiners do evento.

No sábado, por volta das 23h, alguns dos bares não dispunham de bebidas alcóolicas. Muitas pessoas tiveram seus celulares furtados neste dia.

A produção do evento se esforçou para corrigir todos os incidentes o mais rápido o possivel. O problema de deslocamento do sábado para a sexta foi minimizado. E a segurança do evento conseguiu recuperar pelo menos 200 celulares furtados identificando e prendendo os responsáveis pelo furto.

Disneylandia para Adultos

Até um leigo, que nunca escutou música eletrônica ou foi num festival, consegue identificar que, ali, naquele lugar desconectado do tempo e espaço, existia algo especial. Os fãs do Tomorrowland, intitulados People of Tomorrow, usam a palavra “magia” para descrever o que é fazer parte do festival. É comum escutar comparações com Nárnia ou um mundo de sonhos. É um escape da realidade. Mas não aquele pejorativo, dos loucos. E, sim, de uma possibilidade de um mundo ideal, onde não existem professores agredidos, discriminações sociais ou escândalos políticos. Citado espontaneamente por nossos entrevistados: “é uma Disneylandia para adultos”.

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A primeira edição do Tomorrowland Brasil elevou consideravelmente a expectativa de todos os próximos festivais no Brasil. Criou uma cidade no meio do nada, uma realidade paralela de fantasia, paz, amor e beleza – a melhor cenografia já vista por aqui. Muitas das pessoas com quem conversamos, que já havia ido ao evento belga, ficaram surpresas. Esperavam um evento diferente, mas depararam-se com a mesmo decoração e nível de detalhes do festival europeu.

Para uma primeira edição, considerando as dimensões do festival e as 180 mil pessoas que passaram pela Fazenda Maeda, o saldo não poderia ter sido melhor. O festival de 2016 já foi divulgado (dias 21 a 23 de abril) e muitos aguardam ansiosamente o primeiro after movie Brasileiro, a ser lançado nas próximas semanas.

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Nota final: os quatro dias de festival encerraram-se com um domingo nublado, de clima bem menos intenso que os dias anteriores. Muitos deitavam-se pelas gramas e árvores da Fazenda Maeda, exaustos e melancólicos, naquele climão de fim de festa. Na madrugada de domingo para segunda, a chuva começou. Parece que até o tempo contribuiu para que o fechamento do primeiro Tomorrowland Brasil encerrasse com magia.

tml segunda-feira