27 de agosto de 2018/POR Franklin Costa

Recife tem o Coquetel Molotov. Goiânia, o Bananada. Belo Horizonte, o Breve e o Planeta Brasil. São Paulo tem o Popload, Coala e vários outros. Felizmente, agora o Rio de Janeiro tem também um novo festival para chamar de seu: o Queremos Festival.

A cidade maravilhosa ainda é a base do Rock in Rio, mas também foi o berço do Hollywood Rock e Free Jazz Festival. Este último, virou o Tim Festival (2003-2008), criando uma geração de fãs nostálgicos da época em que o Rio tinha um festival de música alternativa.

Tim Festival 2003 – Foto: Divulgação

Coube a um grupo de “cariocas empolgados” fazer acontecer. Queremos!, que nasceu como uma plataforma de crowdsourcing para trazer artistas que deixaram de passar pelo Rio desde o Tim Festival, durante anos manteve acesa a chama de que – um dia – a cidade voltaria a fazer parte do circuito de festivais.

Então, chega de saudade! Os cariocas podem voltar a comemorar: Queremos Festival estreou com o pé direito e mostrou que veio pra ficar.

Festival intimista, locação perfeita e ajustes para o futuro

O local para a realização do Queremos Festival é perfeito. A Marina da Glória fica na zona sul, bem perto do Centro e ao lado do aeroporto. Possui fácil acesso e uma visão incrível da Baía de Guanabara. É o local mais charmoso para se produzir um evento a céu aberto no Rio (não coincidentemente, foi também a casa do Tim festival).

Marina da Glória – Foto: Diego Baravelli

Porém, talvez de forma a valorizar a quantidade de pessoas presentes no local (chutaria não mais que 5 mil), a divisão do espaço do festival não deixou sua experiência tão boa como poderia ter sido. Especialmente no quesito circulação. O espaço fechado por todos os lados deixou uma certa sensação de claustrofobia, ainda que em uma área a céu aberto.

Os dois palcos estavam do mesmo lado, posicionados em L, bem próximos um do outro. Assim que acabava um show, começava outro. Dependendo de onde estivesse, era só virar o corpo em 90 graus para assistir ao próximo show.

Foto: Diego Moretto

Havia apenas duas áreas de descanso. Um trecho de gramado (sem iluminação) próximo ao Palco Azul e um na entrada do festival, onde Doritos, um dos patrocinadores do festival, montou um colorido e bonito redário de luzes de led.

Foto: Diego Moretto

Enquanto a marca de salgadinhos acertou em oferecer ao público uma experiência coerente com a proposta do festival, a Heineken montou um mirante de proporções dantescas que precisa ser revisto pela produção do Queremos para as próximas edições.

Grande demais, chegando a chamar mais atenção que os palcos, o espaço da Heineken parecia uma ativação do Rock in Rio, só que dentro de um festival pequeno e intimista.

O mirante Heineken acabou escondendo o que a Marina da Glória oferece de melhor: a belíssima vista da Baía de Guanabara. Quem subia lá não podia levar sua cerveja pra beber. Não fez sentido.

Foto: Divulgação

O tamanho do bar/mirante da Heineken, somado ao posicionamento dos palcos e a divisão especial do lugar, fez com que o Queremos Festival apresentasse uma experiência mais focada nos shows que na circulação e experiência das pessoas.

Foto: Diego Moretto

O festival durou 10 horas, portanto apresentou uma dinâmica de circulação diferente do formato “show” que o Queremos está acostumado a produzir. Este é um ponto sensível a ser estudado pela produção do festival para as próximas edições.

Queremos! Mais shows nacionais

Muita coisa mudou desde o Tim Festival pra cá. Mas uma coisa continua igual: o brasileiro adora um gringo no lineup. É o que chama atenção da imprensa. É o que vende ingresso.

Animal Collective e Father John Misty foram os dois grandes headliners do cartaz. O primeiro fez um show introspectivo e experimental, como era de se esperar. O segundo, apresentou seus hits de folk rock e baladas pop (um quê de Elton John para millennials). Falaram com os fãs, mas não empolgaram o público geral.

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Coube ao Rincon SapiênciaBaianasystem serem os pontos altos do Queremos festival. O primeiro, dando uma aula de presença de palco, com um show de rap de versos afiados e ritmos afro-eletrônicos. Um show para dançar e prestar atenção. Para se surpreender e quebrar estereótipos.

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Já o Baiana, bem… se você ainda não assistiu ao Baiana, faça o favor e assista. É a melhor banda que nasceu no Brasil desde Chico Science e Nação Zumbi.

Não cheguei em tempo de ver os Boogarins e Letrux. Mas todo mundo com quem conversei – não foram poucos – afirmaram ter sido incríveis (mas criticaram o horário do show da Letrux).

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A música nacional independente é o Brasil que deu certo. Escutar Russo Passapusso evocar “Marieli, Presente!” só faz com que estes artistas tenham ainda mais relevância dentro do contexto sócio-político-cultural atual. Queremos mais shows nacionais, por favor!

Longa vida, Queremos!

No balanço geral, ficamos felizes e agradecidos pela estréia do Queremos Festival.

O Rio volta a fazer parte do circuito nacional de festivais de música independente, e desejamos que o festival continue a marcar presença em 2019 e nos próximos anos.

É mais um capítulo na história destes cariocas empolgados que tanto já fizeram pela cultura da cidade maravilhosa e que ainda esperamos nos surpreender pelos próximos anos.

Longa vida, Queremos!