18 de setembro de 2019/POR Tiago Oliveira

No fim de semana dos dias 13, 14 e 15 o Festival Nova Batida desembarcou em terras portuguesas, pelo segundo ano. A gente já indicou ele por aqui como um dos festivais tesouro de Portugal.

Antes de mais nada, me chama atenção o fato do nome do festival não ter uma associação imediata com música eletrônica, ou com cenas do gênero. Mas quando descobrimos que trata-se de um evento importado da Inglaterra, fica fácil perceber que pode ter sido uma tradução não muito bem resolvida.

Por falar nos ingleses, estavam todos lá, da organização até grande parte do público – o português ficou abafado diante de tanto sotaque britânico.

Veja a seguir nossas impressões sobre o Festival Nova Batida.

Mas, antes de continuar a leitura, uma perguntinha: topa viajar com a gente para uma cidade e um festival dos sonhos? Conheça os próximos destinos OCLB travelSXSW (Austin)Sónar (Barcelona) e Primavera Sound (Barcelona).

Problemas na sinalização

KOKOKO! no Festival Nova Batida

Bom, e a música? A segunda edição apresentou um cartaz muito mais interessante do que o do ano anterior e isso, ao mesmo tempo, também garantiu mais nativos à festa.

Na sexta-feira, primeiro dia, Lisboa fazia um calor de quase 34 graus. Eu estava preparado para suar na pista, mas mal sabia que seria muito mais. O evento aconteceu num espaço muito legal da cidade, o LX Factory – uma complexo industrial histórico que foi tomado por bares, restaurantes e lojas da galera hype & criativa.

Confesso que demorei a localizar onde exatamente aconteceriam os shows. A organização errou em não sinalizar o caminho até a entrada principal e a bilheteria. Esse é, aliás, um ponto que precisam melhorar para o próximo ano. Mas àquela hora, por volta das cinco da tarde, não havia filas e entrar no enorme galpão para ver KOKOKO! foi tranquilo.

Altas temperaturas

Apesar de achar que o ambiente, uma espécie de fábrica desativada, era ideal para a atmosfera das batidas que se ecoariam ali pelos três dias, o calor castigava quem estava lá dentro. Não havia um sistema de ventilação que amenizasse as altas temperaturas.

Por sorte, a mistura brutal do KOKOKO! me fez desligar um pouco da sensação. Realmente incrível ver a mistura que esse coletivo, nascido na capital da República Democrática do Congo, apresentou no palco. Eles transformaram materiais como metal, latas, peças de motor e objetos de plástico em música e dança. Uma experiência não só sonora como também bastante visual.

A estrutura do Festival Nova Batida

Depois dessa performance estonteante, resolvi enfrentar o bar para comprar uma bebida. É aquela velha história, consumir nesses ambientes sempre é mais caro. Apesar disso, não considero que tenha sido “preço para estrangeiros”, só não era tão barato quanto nos cafés das esquinas que havia passado antes.

De modo geral, achei o atendimento satisfatório. Pagava-se ao próprio atendente, com dinheiro ou cartão. Por mais que o preço não tenha me feito ir muitas vezes ao bar, não encarei filas. Digo o mesmo para os banheiros, havia estrutura suficiente para atender a todos, homens e mulheres.

Ainda nesse enorme galpão, vi Ross From Friends. Foi um belo espetáculo que começou tímido e cresceu até o ponto de vermos um saxofone em meio aos beats eletrônicos, o que levou aos presentes, incluindo eu, à loucura.

Não arredamos o pé do lugar para garantir espaço na apresentação do Floating Points, que contou com imagens surreais para apresentação do seu set. Galáxias, estrelas e apocalipses que, sincronizados às várias texturas de seu som, nos transportavam para outra atmosfera.

O palco no Village Underground

Jayda G - Nova Batida
Jayda G

Em seguida, resolvi tomar um ar e conhecer o outro palco do evento, que ficava do lado de fora do LX Factory.

Era preciso sair do complexo para entrar na outra parte do festival, o Village Underground. Na minha opinião, a falta de ligação entre esses dois ambientes descaracterizou um pouco o que entendemos como “experiência de festival”. Penso que isso poderia ter sido resolvido com uma comunicação visual mais elaborada e integrada.

A parte boa é que o Village é um espaço aberto com mais áreas de convivência. Foi ideal para sentar e respirar antes de partir para a próxima atração; que aconteceu ali mesmo, em meio aos containers e sob uma tenda que abrigava DJs e público.

A apresentação da canadense Jayda G, conhecida por suas misturas regadas a house e disco e, claro, muita coisa boa do passado. Eu fiquei completamente hipnotizado por sua energia enquanto tocava. Trata-se daquele tipo de DJ que se diverte junto e, por isso, impossível de ficar parado, tamanha a vibração (com certeza o ponto alto da noite pra mim).

Lá pelas 21h e pouco, com as luzes e a fumaça conhecidas dos clubs, tinha a sensação nostálgica daquela trilha sonora de infância entrelaçado com as novas batidas (desculpe o trocadilho) introduzidos pela Jayda. Foi o set com mais “uhuuu!” que presenciei aquele dia.

Não durei muito depois dessa apresentação, mesmo sabendo que havia grandes nomes por vir, como Jon Hopkins – que soube depois, quase por unanimidade, ter sido brutal. Fica pra próxima, se o calor não sugar toda minha força de viver (risos).

Cancelamento frustra no segundo dia do Festival Nova Batida

Havia uma espécie de consenso entre meus amigos e eu que o primeiro dia tinha o melhor cartaz. Mas voltei no sábado (com Lisboa aparentemente mais fresca) para ver o Friendly Fires, banda que marcou a fase indie da minha vida.

Estava curioso para vê-los tocar ao vivo o álbum lançado este ano, terceiro depois de oito anos sem novidades. No entanto, para minha infelicidade, os caras não apareceram. A confirmação foi dada pela página do Nova Batida, uma hora depois do horário previsto do show.

Disappointed (but not surprised), fui rodar o espaço em busca de algo que me chamasse atenção. Foi aí que passei a observar se o festival oferecia alguma outra experiência além dos concertos, mas não encontrei nada. Nenhuma ativação de marca ou lounge patrocinado, nem sequer um brinde em troca de baixar um app no celular.

Isso acabou se tornando uma questão entre as pessoas que estavam comigo: quem são os patrocinadores? Quem organiza o evento? Não havia uma marca sequer estampada nas poucas peças de comunicação do evento.

Enquanto essas questões permeavam minha cabeça, deixei ser embalado pelo Jungle, que teve seu set estendido para cobrir o Friendly Fires. Eu ainda dei um pulo no palco indoor do Village Underground para ouvir os brasileiros do Amor Records, que fazem um som sempre boa onda.

No entanto, o calor (ele de novo) me mandou para casa antes da meia-noite, com as dúvidas, as boas lembranças e as novas batidas que presenciei nesse festival.