21 de abril de 2019/POR Franklin Costa

O Montreux Jazz Festival é um dos mais tradicionais festivais do mundo. Criado em 1967, o evento chega pela 1ª vez no Rio de Janeiro entre os dias 06 e 09 de Junho.

O anúncio da edição carioca do Montreux foi realizado na semana passada, e entre os artistas confirmados estão clássicos do jazz e da música instrumental como Steve Vai, Stanley Clarke, Al Di Meola, Quarteto Tom Jobim, Maria Rita, Hermeto Pascoal, Hamilton de Holanda e Andreas Kisser.

A lenda Stanley Clarke

A produção ainda promete mais de 40 atrações, divididas entre três palcos, além de espaços espalhados por outros cinco bairros cariocas.

Até aí, tudo lindo. Mas a dura verdade é que – apesar de nos sentirmos felizes com o anúncio de um novo festival (especialmente no Rio de Janeiro) – o comunicado do Montreux ainda não convenceu.

Por que a edição carioca Montreux Jazz Festival ainda não convenceu?

Em resumo: porque a gente conhece e acompanha com admiração o Montreux Jazz Festival original (veja aqui: com vídeos especiais, o Montreux Jazz chega em sua 52º edição)  

Como acontece na maioria dos casos de festivais gringos que anunciam uma edição por aqui, vende-se uma marca, mas o conteúdo e a experiência é bem diferente.   

Para entender melhor, vem comigo.

Uma breve história dos festivais de Jazz

Em nosso curso – OCLB Masterclass: a Nova Era dos Festivais (pré-inscrições para a edição online aqui) – apresentamos logo no 1º bloco de conteúdos a história e evolução dos festivais de música através das décadas.

Os primeiros festivais de Jazz aconteceram nos EUA nas primeira metade do século XX, com destaque para o Newport Jazz, surgido em 1954.

Newport Jazz Festival em 1968.

Na Europa, a música clássica era o “hit” dos festivais até o início do século XX. Porém, com a ascensão do nacionalismo e as duas grandes guerras mundiais, não pegava bem para a França ou Inglaterra promoverem concertos em que a maioria das músicas era de origem Austríaca ou Alemã.

Foi preciso buscar uma nova música. Uma música que representasse o espírito do tempo pós-guerra. Um gênero musical descompromissada com o passado, com um olhar para o futuro, criativo e original.

Jazz em São Francisco, 1958, Earl Hines (piano), Jimmy Archey (trombone), Francis Joseph (cornet), Earl Watkins (drums)

Foi assim que nasceram os primeiros festivais de Jazz na Europa. Alguns deles em atividade até hoje, como o Molde Jazz Festival na Noruega (1961), JazzFest Berlin (1964) e o mais famoso deles, o suíço Montreux Jazz Festival (1967).

Montreux Jazz Festival é muito mais que Jazz

O festival acontece na cidade de Montreux, na Suíça, e é um dos maiores eventos que marcam o verão europeu. Todos os anos, mais de 250 mil pessoas se reúnem às margens do Lago Léman para curtir um dos mais admirados festivais do mundo.

Montreux Jazz Festival – Vincent Bailly

Estar no line-up do Montreux Jazz Festival não é para qualquer um, e por isso mesmo algumas apresentações ao longo desses 53 anos são consideradas históricas, caso dos shows de Nina Simone, Miles Davis, Ella Fitzgerald, Marvin Gaye, Prince, David Bowie e Stevie Wonder.

Porém, apesar de tradicional, o Montreux é um dos festivais mais inovadores e contemporâneos do mundo. Desde a década de 70, o festival incorpora em seu line-up grandes nomes do rock, pop, R&B, hip-hop, afrobeat, soul, música eletrônica etc.

Se liga em alguns dos nomes que fizeram parte da edição 2018 do festival: Jorja Smith, Jamiroquai, Massive Attack, Jack White, Matthew Herbert, Nine Inch Nails, Odesza, Queens of the Stone Age, Tyler The Creator, Iggy Pop, Billy Idol, Alice in Chains e Asap Twelvyy.  

Se você duvida, confira o vídeo de anúncio do line-up de 2018 (spoiler alert: também foi um dos nossos vídeos favoritos de festivais deste ano).

Para a edição 2019, The Chemical Brothers, Janet Jackson, Red Axes (live), Dixon, Nicola Cruz, Ibeyi, Seun Kuti & Egypt 80, Sting, Elton John, Cat Power, Khruangbin, Jungle, Thom Yorke e James Blake, entre outros, estrelam o line-up.

Ou seja…Montreux Jazz Festival é muito mais que Jazz .

Entenda bem, não é que não admiramos ou deixamos de respeitar e valorizar a presença de tantos nomes incríveis já anunciados pelo festival.

Simplesmente dá uma brochada saber que lá fora sua edição é mais próxima do que já foi um dia o finado e saudoso Free Jazz Festival (depois TIM Festival). Reunir um monte de artistas da velha guarda para embalá-los como o Montreux Jazz Festival do Brasil é reduzir demais o papel do Jazz e também do que o festival poderia entregar.

Claramente, é um festival voltado para um público mais velho (30+). Isso não é problema, pelo contrário. O line-up da edição Suíça reflete também não é nada jovem, refletindo os gostos das gerações X e baby boomers.  Existe uma carência de festivais voltados para esta audiência e esse é um público que tem um maior poder aquisitivo (pelo menos na teoria).

Mas faltou à curadoria um olhar fora da bolha, mais coerente com o que acontece lá fora. Imagine a comoção de um show do Massive Attack por aqui? Ou Tyler The Creator (que deu um cano no Lollapalooza em 2018)? É muito longe sonhar com um James Blake no Rio? Apenas um destes nomes já seria o suficiente para equilibrar a onda conservadora desta primeira leva de artistas anunciados.

Depois de acompanhar com alegria os eventos do selo carioca Jazz We Can, que trouxe nomes como Gregory Porter (ok, tradicionalíssimo!), mas também Snarky Puppy, Bonobo (whaaaat?!) e Kokoroko; depois do Queremos! trazer BADBADNOTGOOD e o concerto épico do Kamasi Washington…. esperávamos um pouco mais dos primeiros nomes anunciados no line-up do Montreux Jazz in Rio.

Especialmente no momento em que o Jazz passa por uma nova fase no mundo pós-digital, flertando com a música eletrônica em projetos incríveis como os alemães do Jazzrauch Bigband e Daniel Brandt, ou dos os norte-americanos Robert GlasperChristian Scott aTunde Adjuah (e o super grupo R+R=Now) ou mesmo os brasileiros Yangos, Metá Metá, Constantina e Psilosamples.

Desejamos sucesso e longevidade ao Montreux Jazz Festival no Rio de Janeiro. Mas também que ele possa a ser nesta ou nas próximas edições um reflexo mais próximo do que acontece na gringa. E não mais um festival de jazz com artistas exclusivamente dialogando com o passado.

Jazz é muito mais que isso. E o Montreux, também.

Antes que as luzem se apaguem…

Obrigado especial para a comunidade OCLB, que indicou projetos incríveis de jazz e música instrumental nacionais. Além do Yangos, Metá Metá, Constantina e Psilosamples, também foram lembrados Azymuth, Bixiga 70, Hurtmold, Guizado, Uakti (que acabou, mas poderia voltar), Esdras Nogueira, Marmota Jazz, Amaro Freitas, Iconili, Serenata Orquestra, Mazin Silva, Flora Purim, Airto, Thiago Delegado, Rumpilezz, Jazz no Porão, Big Jam, Ney Neto, Saracotia, Coisa Fina, Quartabê, Ovni, Mental Abstrato, Nômade Orquestra, Daniel Podsk Quartet entre outras feras que continuam empurrando o jazz ahead.