27 de novembro de 2019/POR Gabriel Moreno

São Paulo recebeu, nos dias 19 e 20 de novembro, a 1a edição da “Black to the Future”, festa produzida pelo Afropunk e Feira Preta. A festa rolou em São Paulo em celebração ao Dia da Consciência Negra.

Confira como foi essa festa de dois dias onde foi anunciada a data e o local onde será realizada a primeira grande edição do festival no Brasil. Ah! E se quiser conhecer um pouco mais sobre a história desse super movimento cultural, dá uma olhadinha nesse post!

Black to the Future, um mini Festival em comemoração ao Dia da Consciência Negra – Dia 01

Foto: Jef Delgado

Por volta de 21:30 da noite o DJ começava a aquecer a pista na Audio, no bairro da Barra Funda, São Paulo capital. Minha primeira impressão ao chegar é de que o espaço estava vazio. Confesso que senti falta de barracas de empreendedores negros, ativações de marcas que já foram ao Afropunk e integram a Feira Preta (como a Beleza Natural).

A marca ativada ali era a própria Afropunk. Painéis de selfie com as logos das marcas Afropunk e Feira Preta, painel com ilustração da programação e as frase afirmativas do Afropunk traduzidas ao português, podiam ser vistos pela entrada, praça de alimentação e área de fumantes da casa. 

Às 22h a banda de trash metal hardcore mineira Black Pantera deu um sentido concreto à palavra afropunk. 

O trio lembra um pouco, os também mineiros, Sepultura, mas com personalidade própria. As letras cantam sobre temas contemporâneos e uma mistura de Trash, Punk e sotaque brasileiro. Black Pantera tem estado com a agenda cheia nos últimos anos, tocando por diversos festivais e casas de show do Brasil, incluindo as edições do Afropunk de Paris e Brooklin.

A casa foi enchendo e, por volta de 23h, já estava lotada. Todo mundo estava curioso para entender o que o Afropunk traria para o Brasil. O evento dos dias 19 e 20 foi anunciado com cerca de um mês de antecedência. 

Data e local do Afropunk Brasil 2020

O que aconteceu na Audio não foi uma edição do festival, mas uma festa de celebração que colocou oficialmente para o mundo a data e local da edição do Afropunk no Brasil: dias 28 e 29 de Novembro de 2020 no Centro de Convenções de Salvador.

Com a quantidade e qualidade de mestres de cerimônia a programação da “Black to the Future” com a Feira pareceu de fato um mini festival. Vamos te contar todos os detalhes do que rolou.

“Música Preta sou teu instrumento vim para lhe servir” – Xênia França

Foto: Jef Delgado

Em torno de 23h Aya Bass abençoou a casa com um show espirituoso e dançante. O trio é formado por cantoras reconhecidas pela crítica no cenário da música e do teatro: Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França. As baianas performaram vestidas de branco, assim como toda a sua banda. O show passeou pelos repertórios das três artistas derramando para o público um banho de axé. 

Um encontro entre carnaval da bahia, mitologia dos orixás, sonhos de futuro afrofuristas, mensagens de positividade e autocuidado. A combinação de três vozes potentes, banda suingada e eletrônica e danças com referências ancestrais, levou o público a uma grande e coletiva gira.

Luedji Luna anunciou o lançamento de uma música nova durante o show e revelou que em breve essa música será tema de uma próxima novela.

A DJ e modelo brasiliense, Aish Mbikila, seguiu aquecendo a pista da Audio. Aisha foi notícia neste ano após estampar a capa da revista Forbes como uma das jovens com menos de 30 anos em destaque nas suas categorias. Aos 21 anos ela é figura recorrente em clipes de grandes artistas negras brasileiras, tem uma companhia de dança e já realizou campanhas internacionais como a recente campanha para marca esportiva Nike. 

Se a coisa preta, a coisa tá boa! – Rincom Sapiência

Recente vencedores do Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Português, BaianaSystem é uma das bandas obrigatórias em 9 entre 10 festivais Brasileiros. Ouso dizer que a banda é a melhor performance ao vivo do país na atualidade. Sem dúvidas ao menos a mais catártica. Como diz Caetano, Baiana é um acontecimento. Arrasta multidões protagonizando um movimento que reinventa o carnaval de Salvador. Magicamente o grupo consegue transportar essa energia da pipoca para toda sua agenda lotada de apresentações.

Enquanto as Ayabass se apresentaram todas vestidas de branco, o BaianaSystem escolheu contrabalancear as cores das roupas tocando todos vestidos de preto. O show teve participação do rapper baiano Vandal com a direito a mosh e casacos ensopados de suor do público que viu a temperatura da noite paulista subir. E as projeções com referências ao carnaval e mensagens políticas, marcas registradas dos show do Baiana, nunca decepcionam. 

Se você nunca integrou um dos furacões de gente promovidos pelo Baiana System, perdeu seus amigos e encontrou o sentido da vida na multidão, pare tudo que está fazendo e vá ao show mais próximo da sua cidade.

Rincom Sapiência, dispensa apresentações. O último disco do rapper paulista “Galanga Livre” venceu basicamente todos os prêmios que há para se vencer na música brasileira. As prévias de lançar seu novo disco “Mundo Manicongo” Rincom fez show incluindo primeiras aparições de músicas novas para o público. A qualidade foi lá no alto mantendo os padrões das apresentações de Rincom. Botando a galera para meter dança.

Afropunk chega a SP 

O DJ Nova Yorkino Mike Q, figura recorrente nas edições do Afropunk Brooklyn,  trouxe para a pista a cultura do Vogue Ball. Representada pela House of Black Velvet e por performances espontâneas. A cada drop das dançarines no palco ou na plateia o público ia a loucura!  

Karol Conka caprichou no estilo, lembrando um pouco o vestuário da estadunidense Janele Monáe em edições passadas do Afropunk. Toda trabalhada em babados e com uma auréola angelical sobre seu moicano. “Karol bandida” vestida de roupa que combinava as cores preto e branca apresentou um repertório passeando pela sua carreira. A mistura de traps, batidas brasileiras e letras empoderadas. Se apresentou acompanhada por DJ e percussionista com um grande set de instrumentos que incluía uma latão de 200 litros que costuma guardar óleos ou lixo, da onde ela conseguia tirar sonoridades impressionantes.  

O que não faltou na noite foram mensagens políticas, nas telas de Led, nos discursos dos artistas, nas frases espalhadas pelo espaço. De “Liberdade a Renan da Penha” (DJ carioca de funk que estava preso e foi recentemente liberado) a gritos contra o atual presidente do país. 

O povo da Batekoo subiu no palco para dançar com Karol e de lá não saiu mais. Embalados pelo DJ Fresh Prince da Bahia, que levou um pouco de Brasil para a última edição do Afropunk Brooklyn, corpos queer, não binários, gordos, de todos os tipos tamanhos e formatos, tomaram conta da pista fechando a noite com uma grande celebração da diversidade. A Batekoo botou os quadris da Audio para mexerem até o dia raiar.

Black to the Future: Baco e sua Facção Carinhosa – Dia 2

Todos vivos depois do terremoto que foi o primeiro dia da festa? Vamos então ao segundo. Para começar, é preciso entender que segundo a organização, o show que acabou compondo o segundo dia da festa “Black to the Future” já estava marcado com a casa. Portanto, diferente do formato de mini festival, o segundo dia foi um grande show do baiano Baco Exu do Blues, que é uma das figuras chaves do momento da música nacional.

O show foi do Baco, mas ele não estava só na noite de Zumbi dos Palmares. O artista convocou um bonde pesado para formar sua Facção Carinhosa. Da dupla de DJs e produtores de Campinas DKVPZ, passando pela maravilhosa artista trans Urias. E, é claro, o trio de rappers recém lançados pelo selo de Baco (999): Celo Dut, Vírus e Young Piva

Apesar do formato do show ser um pouco diferente dos shows da primeira noite, senti uma sinergia entre os dois dias. O público que também lotou a Audio no dia 20 estava lá para coroar Baco e sua Facção Carinhosa. O rapper era acompanhado por um coro que partia da plateia e cantava todas as letras a plenos pulmões. 

As telas de led do show exploraram questões políticas e principalmente a crise ambiental do derramamento de óleo na costa brasileira. 

Depois de 2 horas intensas de show, com várias participações, estava terminada a festa.

Um verdadeiro esquenta para o Afropunk Brasil

O esquenta do Afropunk Brasil levantou muita expectativa na maior cidade da américa da latina. Público diverso, pessoas que saíram de várias partes do país para entender o que se passava ali. Era muito estilo por todo o lado, programação intensa e variada, protagonismo e afirmação dos corpos da comunidade LGBTQIA+. Uma data e um local para a chegada de um dos festivais mais importantes do mundo em solo brasileiro.

O namoro para esse acontecimento vem sendo construído nos últimos anos, com visitas dos organizadores (Matthew Morgan e Jocelyn Cooper) ao Brasil e a Feira Preta, com a ida de artistas e empresários negros brasileiros para as edições do Afropunk de NY e Paris. A relação entre grandes players do mercado internacional e players locais é sempre marcada pelo risco do desequilíbrio.

Conversando com pessoas envolvidas na movimentação do Brasil surgiram questões comuns que creio que sejam importantes para definir como o Afropunk estabelecerá essa relação com o país e suas comunidades. O Afropunk vindo para o Brasil concentrará a verba hoje destinada ao setor cultural negro? Ou, conseguirá gerar um impacto que catálise os eventos do Black Money brasileiro? Repetirá a forma impositiva e pouco empática com a cultura local de outras grandes marcas que realizam edições no país? Ou, conseguirá trazer grandes nomes internacionais ao lado de figura centrais para a cena musical brasileira contemporânea?

O pontapé foi bem dado, que venha 2020! A coisa tá ficando preta!