23 de janeiro de 2018/POR Soraia Alves

O Burning Man acrescentou o Brasil em sua rota de edições locais e anunciou o Tropical Burn, que está na fase de receber inscrições para a co-criação por aqui. Apesar de ser um evento tradicional que acontece há mais de 30 anos no deserto de Nevada, o próprio BM incentiva a criação de comunidades diversas em diferentes lugares, a fim de espalhar sua proposta e suas atividades para o mundo todo.

Mas quando o assunto é o Burning Man uma dúvida sempre fica no ar: afinal, ele é ou não é um festival?

A questão é levantada principalmente porque a produção original, assim como as edições locais, faz questão de frisar que o BM “não é um festival”. Ainda assim, considerando suas características e até mesmo a visão que o público participante tem da experiência, nos perguntamos se classificá-lo como festival é exatamente um erro.

Para entender melhor a ideia do evento e, talvez, chegarmos finalmente a uma definição sobre ele, fizemos uma análise que avalia qual é a proposta do BM, o que caracteriza um dito festival e o que entendemos como veredito sobre ele!

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O que é o Burning Man?

O Burning Man é um evento anual que acontece desde 1986, sendo desde 1991 no deserto de Black Rock, em Nevada, nos Estados Unidos, com duração de uma semana e que, atualmente, recebe mais de 50 mil pessoas.

Todo ano é levantada uma cidade no local, a Black Rock City, cuja infraestrutura é planejada e organizada por voluntários, sempre seguindo o tema proposto pelo evento e que muda a cada edição. Segundo a organização do BM:

“Explicar o Burning Man a alguém que nunca tenha estado ali é como tentar explicar a um cego como é uma cor”.

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O BM tem 10 princípios que são a sua base e que, segundo seus frequentadores (burners) fazem a grande diferença na proposta do evento. Esses princípios são:

  1. Autoexpressão radical: liberdade para ser o que quiser e como quiser.
  2. Autoconfiança e responsabilidade: você é responsável por você mesmo, mental e fisicamente.
  3. Desmonetização: esqueça o dinheiro. Não há nada para comprar no evento, muito menos patrocinadores privados. As únicas coisas vendidas dentro da cidade são café, limonada e gelo.
  4. Não deixar rastros: respeito ao meio ambiente com o compromisso de não deixar nenhum vestígio físico no local.
  5. Participação: todos se envolvem de forma profunda no evento.
  6. Inclusão radical: não há nenhum pré-requisito para ser parte da comunidade.
  7. Presentear: oferecer presentes gratuitos a outros participantes, sem necessariamente receber algo em troca.
  8. Cooperação: em todos os espaços, atividades e assuntos que envolvem o BM.
  9. Comunidade: os membros da comunidade são chamados de burners e organizam eventos ao longo do ano, além do BM.
  10. Imediatismo: a máxima do Burning Man é aproveitar o aqui e agora.

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Quem já foi diz que o Burning Man é realmente um ode à contracultura e questiona praticamente tudo o que se espera de um festival. Semelhante a um “delírio hippie”, nas palavras da jornalista Raquel Seco, do El País, milhares de pessoas sobrevivem a um ambiente hostil, vivendo no limite da expressão artística, da liberdade e da diversidade.

Para o DJ André Guazzelli (DRE), que já tocou por lá: “O Burning Man não é um festival ou uma rave, é uma cidade onde tudo acontece. Você acha desde aulas de Yoga até festas. Cada vez que eu toco é uma experiência diferente.”

Mas, apesar da aura “não festival” replicada por seus frequentadores, um ponto chama atenção na concepção do Burning Man. Um de seus membros do conselho é ninguém menos que Chip Conley, famoso antropólogo cultural que, entre as dezenas de atividades que encabeça, está a criação e curadoria do site Fest300, portal especialmente voltado para festivais.

E não é que o Burning Man faz parte da lista de festivais do site? Atentamos para o detalhe de que ele está mesmo classificado como festival assim como os outros, uma vez que a introdução à sua descrição leva o título de “Sobre esse festival”.

É, então, no mínimo curioso que o diretor do evento que se diz “não festival” coloque o mesmo como destaque em um site sobre festivais.

O que classifica um festival?

Sabendo um pouco como é a experiência do Burning Man, precisamos resgatar o que é um festival. Segundo a Wikipedia (desculpe a referência, mas ela nos pareceu mesmo a mais completinha):

Um festival é um evento comumente celebrado por uma comunidade e centrado em algum aspecto característico dessa comunidade“.

A partir disso, surgem macro nichos focados justamente em características essenciais para cada comunidade: música, comida, moda, artes, esportes… Temos então festivais de música, gastronômicos, etc. Por fim, dentro desses nichos surgem movimentos ainda mais específicos, como um festival de música eletrônica ou um festival de comida mexicana.

Como toda pessoa é plural em seus interesses, os festivais também se tornam plurais a fim de atender diferentes interesses de uma comunidade cada vez maior e mais mesclada. Daí surgem os modelos de eventos como os conhecemos, que misturam diversão, entretenimento, cultura, alimentação e variadas expressões.

Lollapalooza Chicago 2017 / Divulgação

Burning Man: festival sim ou não?

Mas e aí, o Burning Man é ou não é um festival?

Se pensarmos pelos itens que configuram um festival, temos:

  • O Burning Man é um evento?  Sim.
  • Esse evento é celebrado por uma comunidade? Sim, e eles até levam nomes próprios (“burners“).
  • Esse evento é centrado em um aspecto (ou mais) característico dessa comunidade? Sim, afinal, além de ser um catalisador para a cultura criativa no mundo, o BM se baseia em 10 princípios que tornam extremamente amplos os aspectos característicos de sua comunidade.

Analisando assim, a resposta parece óbvia. Sim, o Burning Man pode ser nomeado como festival. Porém, sempre há de se respeitar a identidade criada pelo evento.

Podemos dizer, então, que uma das grandes sacadas do Burning Man é justamente criar uma aura de misticismo e curiosidade em torno de sua classificação. Quase como uma lenda urbana que se prova real só quando é vivenciada, é preciso conferir o evento pessoalmente para tirar suas conclusões.

Por aqui, optamos por colocá-lo no rol de “experiências que queremos conferir”. Afinal, os rótulos pouco importam!