V Semana do Hip Hop Bauru: música, ativismo e empoderamento - Pulso

V Semana do Hip Hop Bauru: música, ativismo e empoderamento

“Hoje a gente não é mais o fim de festa”, disse Renato Magú ao lado de Emicida nos momentos finais do show que o rapper fez como encerramento da V Semana do Hip Hop Bauru, no domingo (15/11). Magú tem razão ao comemorar a evolução da cena Hip Hop no Brasil, em especial no interior de São Paulo. A SHH é considerada hoje o maior festival gratuito do gênero no país. Ao todo foram 10 dias dedicados à música, oficinas, palestras, grafite e debates, com mais de 80 atrações distribuídas por diversos pontos da cidade.

A organização da SHH é feita pela Casa do Hip Hop Bauru em parceria com a Secretaria de Cultura da cidade. A primeira edição aconteceu em 2009 e em 2013 o evento passou a integrar o calendário oficial da cidade, contando também com uma verba mínima garantida pela prefeitura. O festival foi crescendo em dias e público, e ganhando shows mais representativos. “Escolhemos shows com um discurso próximo ao que a gente tem aqui, que é o discurso de combate racial, combate à desigualdade social, enfrentamento a esse sistema que oprime principalmente a juventude preta, pobre e periférica”, explica Keytyane Medeiros, gestora da Casa do Hip Hop.

Thaíde PulsoVelha escola do rap. Thaíde representou o começo do gênero no SHH e confirmou sua importância

Com os pilares “formação e entretenimento”, o festival atinge um público heterogêneo e se preocupa em repassar valores importantes: “Como formação, a gente pensa não só na questão do jovem fazer uma oficina de grafite, de DJ ou de Break. Pensamos na formação político-cultural crítica desse cidadão, de o jovem se entender como sujeito na sociedade por meio do Hip Hop, conhecer a história do movimento negro, da periferia no Brasil, das polícias Civil e Militar, o debate sobre a maioridade penal… O jovem compreender quem ele é na sociedade brasileira e como as decisões tomadas na grande política afetam a vida pessoal dele e, a partir daí, aprender a se organizar”, diz Keytyane.

O discurso acaba sendo mais ouvido quando propagado por importantes artistas da cena. No domingo, 08/11, Thaíde fez a vez de principal figura dentre os músicos e DJs que se apresentaram durante o dia de shows no Parque Vitória Régia. Mas foi o cearense Rapadura quem mais impactou o público com sua mistura de Rap e repente em meio às influências totalmente brasileiras, como o Maracatu. Rapadura faz questão de lembrar a miscigenação do nosso país, inspirando todos saírem de seu show refletindo sobre o quanto o Brasil é um país negro e indígena, e não branco, como ele reproduz em suas músicas.

Tassia Reis 2 pulsoEmpoderamento. Tássia Reis mostrou que há, e muito espaço, para mulher no Hip Hop

Na quarta-feira (11/11), Tássia Reis deu voz ao Rap feminino em uma excelente apresentação no Sesc Bauru. O show, que começou tímido, teve como base o EP homônimo lançado por ela no ano passado. Como sete músicas não preenchem tanto o tempo, Tássia abriu espaço para o discurso embalado por “Ouça-me”, convidou a rapper Sara Donato, de São Carlos, para uma improvisação na qual rolou “Peso Na Mente”, incentivou a roda de Break (que teve como destaque a B-Girl Ana Gabriela Rodrigues) e mostrou que se dá melhor em apresentações cujo objetivo é mesmo estimular o empoderamento das mulheres (diferente do recente show no Festival Contato, no qual ela foi um tanto abafada por Rico Dalasam).

Emicida pulsoPeso.Emicida sabe mexer com as multidões e 30 mil cantaram com o rapper no SHH

Mas a voz que falou mais alto nessa SHH foi mesmo a de Emicida: “Tem vários raps hoje que são pra descer até o chão. O meu é pra subir até o céu”, disse o rapper já quase no final do show, que não teve a presença de sua banda, sendo acompanhado apenas por um DJ e alguns convidados, como Drik Barbosa e “rapper da casa” Coruja BC1. 30 mil pessoas curtiram a apresentação e a participação da galera rendeu elogios de Emicida: “Aí, Bauru. Na moral, eu amo esse lugar!”. Mas os comentários mais efusivos do rapper foram sempre para a importância do festival: “Parabéns pra quem faz isso acontecer, que se fode pra isso acontecer”, disse.

E é parabéns pra essa galera que faz o corre todo mesmo. A participação na organização da Semana do Hip Hop Bauru é colaborativa, com uma gestão horizontal que se preocupa com a revitalização de pontos da cidade geralmente esquecidos e abre espaço para as vozes do interior. “Tem os meninos do Além da Rima, que existem há 5 anos. O JF tem 10 anos de carreira, Renegados MCs menos de 1 ano”, lembra Keytyane, mostrando que experiência e juventude se juntam graças à diversidade que a SHH proporciona.

Fotos por Felipe Amaral, Felipe Moreno, Lucas Rodrigues e Mariana Caires

Soraia Alves Por Soraia Alves

Jornalista formada pela UNESP-Bauru. Trabalha com web jornalismo e cultura pop.