Tem que Ler: A Era dos Festivais, Uma Parábola - Pulso

Tem que Ler: A Era dos Festivais, Uma Parábola

Sempre pensamos em um festival como um momento de entretenimento, suspensão do cotidiano, uma jogada de marketing, uma furada ou grandes números e estatísticas (de lixo, vendas, equipamento, line ups, amores destruídos, dinheiro gasto no delírio e na empolgação do momento, amizades conquistadas, alegria e por ai vai.).

Mas, afinal um festival acaba sendo uma escolha política?  Uma escolha estética? Exibição de engenhocas e do avanço tecnológico? É justamente, essa somatória, estas perguntas, que envolvem os valores estéticos, políticos e tecnológicos,  que Zuza Homem de Mello, de forma didática e minuciosa – ele viu e viveu tudo de perto – nos oferece no seu livro “A era dos festivais, uma parábola” (Editora 34, 2003, 523 páginas).

A era dos festivais

Obra de fôlego e fundamental para entender a nascente cultura jovem brasileira. No momento em que o Festival Tomorrowland pousa e inaugura um novo patamar para o conceito de festival e juventude no Brasil, apresentamos 10 motivos para você ler o livro (entre um festival e outro, no formato que você mais sentir prazer)

1. Primeiramente para perceber que esta relação e debate entre mídias, tecnologia e festivais não é de hoje. Afinal nos anos 60 foram os festivais que equacionaram a parceria música e TV, num processo que desenhou o surgimento da moderna (ou para alguns pós-moderna) indústria cultural brasileira. Para ter uma ideia, no período de 1966 a 1968, os festivais da canção não só agitavam a culturalmente a sociedade brasileira como atingia altos picos de audiência.

2.Que na verdade temos talento para importar conceitos e ideias, afinal esses festivais, nas suas primeiras edições, eram adaptações da TV italiana e seu “Festival de San Remo”, mas que construiu uma forma singular e abrasileirada para o conceito. De certa forma esta importação/adaptação implode as críticas de puristas para a penetração atual de várias grifes internacionais no contexto local.

3. Entender como o conceito de “festival” mudou. Naquela época era “Festival da canção”. Cada apresentação reunia um grande número de compositores e intérpretes que apresentavam/interpretavam as suas canções, para um júri especializado, e que o público torcia de maneira enlouquecida. O conceito de festival é permeável muda e dialoga com cada época e geração.

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          Os Mutantes no III Festival Internacional da Canção, da TV Globo em 1970 (http://glo.bo/1chL9vC)

4. Que você poderia assistir na tranquilidade do seu lar (com a família ou amigos), no caso se você estivesse inserido no círculo do consumo dos aparelhos de TVs (importados ou fabricados no Brasil).

5. O festival reunia um conjunto de músicas inéditas, e que direcionava e solidificava as novas tendências musicais. Essa era a sua grande força estética. Não é por acaso que os capítulos do livro são organizados com os nomes das canções.

6. Que o debate entre engajamento e nacionalismo se colidia com ideias mais universais e existências. E por um lado a sua força política dividia a juventude em padrões estéticos misturados que utilizavam da moda para construir a sua identidade.

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Tony Tornado e Trio Ternura no V Festival Internacional da Canção, da TV Globo em 1970 (http://bit.ly/1IJLbZq)

7. No palco dos festivais desfilavam uma grande quantidade de ritmos e estilos. Desde toadas ufanistas até músicas experimentais. Alguns fundiam música pop, bossa nova e cancioneiro tradicional.

8. Que foi o local escolhido para se consolidar um estilo chamado MPB.

9. Que nos anos de 1967 e 1968 os palcos dos festivais desencadearam embates singulares, entre artistas e público, com a TV como agente de divulgação dessas historia. A TV estava ali e registrou aplausos e vaias (sim! a vaia era uma arma política/ideológica) é, só lembrar, o músico Sergio Ricardo, super enlouquecido pelas vaias ensurdecedoras, sai do palco, porém antes diz: “- Vocês ganharam”, quebrando o seu violão e atirando os pedaços na platéia (que atingem justamente que estava aplaudindo o músico).

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Sergio Ricardo no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record em 1967 

10. E descobrir que moda, mídia e música amalgamaram o estilo de ser pensar das sociedades urbanas modernas que aliados a força da juventude pode conduzi-los na busca dos seus oásis ou QUIÇA DO SEU PARAISO PERDIDO.

Claudio Bull Por Claudio Bull

Claudio Bull é historiador da arte, produtor cultural, dj, vocalista e letrista da Superquadra e Da Silva

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