Rio 2016 Foi Um Festival Descentralizado. E Agora, Qual é o After? - Pulso

Rio 2016 Foi Um Festival Descentralizado. E Agora, Qual é o After?

No último dia 5, o Brasil e o mundo foram apresentados à Rio 2016. Diante de muitas polêmicas, obras superfaturadas e diversos problemas com infraestrutura e segurança, o país teve a fé parcialmente renovada ao se deparar com a grandiosidade da abertura, convidados e desdobramentos do evento.

Mesmo passando por uma crise econômica e sob intensos protestos políticos, o Brasil, como de costume, conseguiu se alegrar perante às mazelas e decidiu realizar uma competição digna e animada que somente o povo daqui é capaz. Isso tudo, é claro, também envolve muita festa e é aí que nosso radar entra em ação.

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Para quem acompanha ativamente os períodos olímpicos, a informação de que as cidades-sede devem deixar alguma herança positiva ao futuro do local não é uma novidade.

“É preciso pensar o retorno a longo prazo”, afirma Bent Flyvbjerg, professor da Saïd Business School, escola de negócios da Universidade de Oxford.

O profissional pesquisou a fundo as Olimpíadas e, no estudo “Olympic Proportions: Cost and Cost Overrun at the Olympics 1960-2012”,  revela que em absolutamente todos as edições os custos ficaram acima do planejado.

Encerramento Londres 2012
Encerramento Londres 2012

Ainda assim, cidades como Atlanta, nos Estados Unidos, apresentaram aumento econômico nos anos seguintes aos jogos, já que investiram em hotéis e espaços voltados para o entretenimento. Em Sydney, por exemplo, foi criado um sistema de reciclagem de água em larga escala e programas de educação ambiental também devido às Olimpíadas. A despoluição da Baía de Homebush foi outro grande marco.

sydney

Atualmente, o Estádio Olímpico de lá recebe cerca de 45 eventos ao ano e pôde abrigar a Copa do Mundo de Rugby, em 2007, e a World Masters Game, em 2009.

Continuando num excelente ritmo, o espaço também se tornou a sede do festival de música eletrônica Stereosonic e, apesar da edição deste ano ter sido cancelada, o evento trouxe no line-up de 2015 nomes como Major Lazer, Carnage, Armin van Buuren, DJ Snake, Yolanda Be Cool, Tigerlily e Clean Bandit. Na mesma época do ano, o Estádio também recebeu o AUS-X Open, campeonato australiano de motocross, e o primeiro show da turnê de Taylor Swift, totalizando mais de 150 mil pessoas. Para dar conta do recado, Sydney precisou confiar na eficiência do transporte público e, assim como nas Olimpíadas, demonstrou que segurava bem o desafio. 

Para completar, o Parque Esportivo, antes localizado em uma área perigosa da cidade, se transformou num bairro residencial e comercial. É possível confirmar em imagens os benefícios dos jogos na cidade australiana através deste vídeo.

Apesar dos gastos astronômicos em Atenas, na Grécia, o turismo local cresceu mais de 100% dez anos após os jogos. E, mais recentemente, em Londres, a renovação do leste da cidade resultou em dois milhões de toneladas de terras descontaminadas e investimento em áreas verdes, além da construção de novas estações de trem e metrô. Isso tudo sem contar o cuidado com a infraestrutura, resultando em arenas possíveis de serem inteiramente transportadas para outras cidades, e o decorrente aumento de adeptos de atividades físicas. 

Em Barcelona, o cenário é ainda mais interessante: praias foram recuperadas, áreas antes abandonadas foram revitalizadas, novos eixos viários que desafogaram o trânsito foram construídos e, desde então, a região continuou a sediar eventos de grande porte, como o Primavera Sound. Para quem não sabe, o evento, seguramente um dos mais importantes da música mundial, é realizado na Vila Olímpica de lá.

É claro que nem tudo são flores. Em todas as cidades foram deixados “elefantes brancos” e pontos negativos. No caso de Londres, o Parque Olímpico Rainha Elizabeth, por exemplo, que inclui o velódromo e centro aquático, não é lá muito bem aproveitado. O último, inclusive, quase não recebe nadadores porque o preço das piscinas públicas aumentou nos últimos anos. Em Atlanta, o projeto de transformar a Vila Olímpica em bairro foi por água abaixo e, em Pequim, o Estádio Ninho caiu no obsoletismo.

Estádio Ninho, Pequim
Estádio Ninho, Pequim

O cenário, visto por essa ótica, pode ser desanimador. Prova disso é que diversas cidades importantes já abriram mão de sediar as Olimpíadas, como Munique, Boston e Oslo, justamente porque a população não quer “pagar pra ver” as eventuais melhorias sob o preço de lidar com efeitos colaterais não tão positivos assim. É um risco que se corre, é claro, mas que pode (e deve) ser diminuído através de boa gestão de recursos.

E o que esperar, então, do legado da Rio 2016 em relação à cultura? 

Não há duvidas quanto à característica inata do brasileiro de saber festejar. Os Jogos simplesmente confirmaram o que já sabíamos há certo tempo ou, pelo menos, desde a Copa de 2014.

Ousamos dizer até que as Olimpíadas nos proporcionaram um festival descentralizado, com shows e eventos dos mais diversos tipos espalhados simultaneamente por toda a cidade, durante 15 dias.

Por que não continuar apostando nessa vertente?

Antes de tudo, houve desenvolvimento da mobilidade urbana, especialmente no setor ferroviário. Um passo ainda pequeno se comparado às principais metrópoles mundiais, mas ainda sim bastante significativo para a realidade carioca. Através da nova linha do metrô, é possível, por exemplo, chegar à Barra da Tijuca com maior facilidade. O bairro é conhecido por abrigar diversas casas de espetáculos e a vizinhança ainda conta com a Cidade do Rock, também chamada de Parque dos Atletas, local utilizado como área de lazer durante a Rio 2016 e também sede do Rock in Rio desde 2011.

Rock in Rio 2015 / I Hate Flash!
Rock in Rio 2015 / I Hate Flash!

Indo mais a fundo, também podemos ressaltar que a primeira Cidade do Rock, localizada em Jacarepaguá, palco de duas edições do Rock in Rio (1985 e 2001), tornou-se arena para partidas de baseball e softball no Panamericano de 2007 e, hoje em dia, atende pelo nome de Vila Olímpica da Rio 2016.

Não há dúvidas, portanto, que esporte e cultura são capazes de andar juntos. A herança de uma Olimpíada, caso bem aproveitada, pode beneficiar toda a população e desenvolver ainda mais uma cidade.

Vale destacar que, em 2017, a cidade receberá novamente o Rock in Rio e uma edição comemorativa de 50 anos do Festival de Montreux também foi anunciada. O gigante do jazz desembarcará em terras cariocas em meados de janeiro e marcará a primeira empreitada do festival fora de seu país de origem, a Suíça. Ainda não há datas oficiais, tampouco atrações confirmadas, mas já temos uma certeza: esta pode ser nossa primeira chance de lançar mão da herança da Rio 2016. 

Um dos grandes ensinamentos da Rio 2016 foi, sem dúvidas, a possibilidade de ressignificar espaços. Através da parceria entre iniciativa privada e esfera pública, locais antes abandonados foram transformados em verdadeiros centros de lazer e cultura (alô, Boulevard Olímpico!).

Agora, estamos diante de um leque infinito de oportunidades. Esse é o nosso maior legado e também nosso mais duro desafio.

Mas quem melhor que o Rio para transformar sonhos em realidade? A cidade que recebeu uma gama de nacionalidades de braços abertos, esbanjou hospitalidade e alegria e, como se não fosse o suficiente, ainda conseguiu superar todas as expectativas. A cidade que quebrou barreiras, não sucumbiu à pressão e entregou com maestria uma festa que deu gosto de acompanhar dos cinco continentes. A cidade que também sofreu, protestou, se indignou, mas que, ao final de cada dia, comemorou e vibrou com todas as vitórias dentro e fora das quadras. Apesar de seus muitos problemas, o Rio mostrou o por quê de ser conhecida como Maravilhosa e, durante 15 dias, se tornou o local onde todos gostariam de estar. E pode, sim, continuar a ser. Basta querer.

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