Review: Picnik - Um Festival em Construção no Coração de Brasília - Pulso

Review: Picnik – Um Festival em Construção no Coração de Brasília

* Colaborou: Matheus Costa

No filme “Depois de Maio” de Olivier Assayas, o protagonista Gilles, vivenciando uma crise afetiva e ao mesmo tempo um desconforto com os ideais políticos e contraculturais, caros a juventude dos anos 1960, encontra na sua arte uma maneira de lidar com a situação. Um dos momentos em que esta escolha atinge um ponto excitante é quando Gilles é contratado para fazer projeções psicodélicas com retroprojetor e corantes, formando imagens lisérgicas. A projeção era em cima de uma banda, e se não falha a memória, era o Soft Machine, banda de inglesa de art rock e psicodelia.

Se o cinismo e a angústia revolucionária instalavam-se nos anos 1970, por outro lado, as experiências com as texturas sonoras e visuais psicodélicas iniciadas na década anterior, permaneceram. Mesmo a avalanche punk, não foi capaz de destruí-la, sendo recuperada nos anos 1980 por bandas como Echo & the Bunnyman ou pela nascente cultura da acid house perpetuando-se no underground até os dias de hoje.

O ano de 2017 é emblemático. Estamos no ano que se comemora 50 anos do verão do amor ou Summer of Love. Foi em 1967 que o experimentalismo sonoro tomou conta da produção musical de The Beatles aos Rolling Stones passando por nomes como Love, Cream ou Jimi Hendrix, a psicodelia firmou-se como tendência. Sonoridades lisérgicas, texturas exóticas e incorporação de elementos étnicos eram facilmente encontradas nos álbuns daquele ano.

E exatamente 50 anos depois, em Brasília, também um produto político, social e cultural dos anos 1960, foi montado, no seu coração, um pequeno oásis. Mesmo sem a intenção de homenagear os anos 1960, aconteceu ali no Eixo Monumental, o verão, ou melhor, Inverno do amor. Resguardando as devidas proporções, é claro, o Festival Picnik, com um line up superlativo, prestou uma singela homenagem aos 50 anos do verão do amor. E o Projeto Pulso foi entender o porquê, elencando 10 pontos, vamos lá:

Relevância

Da mesma maneira que o filme de Olivier Assayas revisa os anos 1960, o Festival Picnik, reformula e tenta estabelecer um caminho e uma identidade em relação ao circuito dos festivais que se estabelecem Brasil a fora. Reformularam o conceito, adequando-o ao inicio do século XXI e tornando-se um dos principais festivais realizados no Centro Oeste. É intrigante pensar como os festivais diversificam o modelo, mesmo que tenha um pé em 1960.

Estes eventos do século XXI reinventaram a maneira de consumir e assistir shows. Ao longo dos anos o Festival Picnik foi se construindo e ainda está em construção, e isto é ótimo. Há cinco anos ele vem tomando forma e experimentado um caminho que alterna apresentações de DJs sets com bandas. A construção está na marca solidificando-se cada vez mais. Diferente dos festivais que já nascem grandes e ambiciosos, o Festival Picnik vem narrando sua história a cada edição e se adequando os novos sistemas de divulgação de música.

Meninos e meninas da produção do Festival distribuíam flores e sorrisos para o público.
Foto: John Stan

Localização

Para esta edição e atendendo ao nomadismo urbano, característica do festival, o local escolhido foram os jardins e a praça da Torre de TV. Esta escolha não só foi um acerto espacial, mas também simbólico. Por quê? Além de permitir o acesso fácil, por estar no centro do avião (!!!), no Eixo Monumental do Plano Piloto, transformou o festival em um evento democrático, com a participação da população.  Simbólico devido ao fato do Festival Picnik inserir Brasília no circuito contemporâneo dos festivais brasileiros. O mais legal: não tinha atrações mega ou superexposta, mas sim bandas novas que podiam tocar em evento superlegal.

No sábado o evento recebeu um público jovem, e no domingo esse público jovem se misturou com muitas famílias. Foto: John Stan

Line Up

Uma característica perceptível, também em outras edições, é a curadoria. Ao invés de fazer promoções, muitas vezes humilhantes e desonestas para as bandas concorrerem a uma vaga, o festival apresenta uma assinatura, e dessa maneira diz a que vem. Isso é muito bom, pois antecipa para o público o que irá ver. O resultado foi uma relação calorosa do público com as bandas, criando uma atmosfera intensa e estimulante. O que foi bom tanto para as bandas que vieram mostrar o seu som, bem como para o público que procurava por novidades. Muitas bandas eram desconhecidas do público do DF como os mineiros do Teach me Tiger e Congo Congo ou os norte americanos do The Blank Tapes, que pareciam ter saído do filme “Capitão Fantástico” do Matt Ross, pela tamanha devoção aos anos 1960. Também pouco conhecidos eram os pernambucanos psicodélicos Tagore, os paulistas do Mustache, Apaches e The DeadRocks bem como os brasilienses do Transquarto.

The Blank Tapes. Foto: John Stan

Ava Rocha e Bixiga 70

Artistas consagrados, no circuito alternativo brasileiro, fizeram ótimos shows. No sábado, a MPB com tinturas de post-rock de Ava Rocha encantou todos os presentes com uma performance forte. Ava Rocha atualiza a tradição das grandes cantoras brasileiras, com sua voz marcante e personalíssima. Na sequência uma apresentação memorável e impecável, do Bixiga 70. A banda promove uma fusão bem dosada de várias matrizes sonoras africanas, com uma levada dançante, que muitas vezes,  se aproxima do groove da Banda Black Rio. A dinâmica de palco é um ponto super a favor da banda. O Bixiga 70 e o Baianasystem, no Bananada,  fizeram os melhores que assisti até agora em 2017.

Bixiga 70. Foto: John Stan
Ava Rocha. Foto: John Stan

Glue Trip e O Terno

Se a ideia do Festival Picnik não é indicar tendências, elas acabaram acontecendo, como no caso Glue Trip e O Terno. O quinteto paraibano do Glue Trip foi “a revelação”. Com um som que flerta com o psicodélico, o pop e o indie rock, pedais e sintetizadores, contagiaram o público. Fizeram uma releitura muito bacana de “Um girassol da cor de seu cabelo” de Lô Borges e Marcio Borges. Somado, ainda, uma estética tropicalista indie no palco, com ramos de folhas que se enrolavam no apoio dos teclados e no pedestal dos microfones.

O Terno fez um show que agradou em cheio os seus fãs, e como, eles possuem fãs em Brasília! Foi comovente ver o público cantando junto e feliz. A sensação que fica é que os meninos já estão prontos para ganhar o Brasil. Músicas com bons refrões que inspiram o público a cantar junto. Intensidade pop. O legal foi que eles saíram protegidos do palco pelos seguranças devido o assédio do público. Espero que não demore muito para o Brasil “vestir” O Terno.

Lucas Moura, vocalista e mentor do Glue Trip. Foto: John Stan
Tim Bernardes, guitarra e voz dO Terno. Foto: John Stan

Rock Moderno

O trio paulista FireFriend impressionou com um dos melhores shows do festival. A outrora dobradinha Velvet Underground/Sonic Youth novaiorquina, que faziam o amálgama do som da banda,  tomou um novo rumo em direção à São Francisco e adicionou psicodelia ao som. O resultado é um show  hipnótico e chapado, com linhas de baixo e levadas de bateria que emulam Spaceman 3 e Brain Jonestown Massacre, forjando um som próprio atmosférico e alucinante.

Outra banda que chamou atenção foi a Supervibe. Aprofundando a tradição shoegaze –  já que eles sacam que a base do indie nacional sempre foi shoegaze – misturam guitarras ruidosas com a psicodelia a lá Tame Impala ou Boogarins e demonstrando que uma das melhores cenas do Distrito Federal, está no Gama. Quem se destacou também, e se consolida como um nome importante entre as bandas de Brasília foi a Brancunians. A síntese sonora funde power pop com levada neo psicodélicas mineiríssimas, soando como um cruzamento de The Apples in Stereo, Tahiti 80 e Spoon, a banda promete. Completando os shows inesquecíveis vale citar a energia surf rock do The Raulis, que empolgaram a e fechando a noite de domingo um super show homenagem do Cassino Supernova.

Supervibe. Foto: Tomas Faquini
Gap Gap, voz e guitarra da Brancunians. Foto: John Stan

Panculturalismo

Para demonstrar que o festival flerta com uma cultura plural e diversidade abertura com um ritual, só conecta com os anos 1960. Às 13h, do dia 24, ocorreu a Cerimônia Abertura Shamanica do Festival com Prem e Govinda. Não só fizeram reverência a terra, bem como equilibraram o festival. Esta abertura reintera a intenção de proporcionar atmosfera transcendental interligada pelos Espaços de Cura e Zen. Está dentro da proposta que alinha estética, arte, consciência e bem estar. Integrando esta dinâmica cultural foi muito interessante à apresentação de Seu Estrelo com força cênica musical referendada na cultura popular brasileira.

Abertura Shamanica do Festival com Prem e Govinda. Foto: Leonardo Hladczuk
Foto: John Stan

Lombra Records / Groselha Aperitivo Ed. / Pista de dança

Apesar de ser um palco secundário e ter tido bons shows das bandas Oxy e Billis Negra, parece que para o público ele não funciona direto. Marcelo Júnior, 21, que assistia ao show do Billis Negra, relatou: “eu acho que ele está pequeno, nem dá para ver direito”. Fica a dica para a organização. Já a pista de dança por conta de 4 coletivos de Brasília (ÍMÃ, Vapør, Madre e Boogie) tiveram momentos animados, como no dj set de Fábio Matafora, do coletivo ÍMÃ, no sábado à noite.

Pista no sábado. Foto: John Stan
Uma pausa para uma fotografia. Rappers e clubers em total harmonia. Foto: John Stan

Estilo / Gastronomia / Mercadinho / Diversão

O fato de o evento ter sido estruturado ao redor de uma fonte foi legal, porque o público ficava andando em círculo entre a área de alimentação, a área de moda e o mercadinho. Para os expositores esta organização foi fundamental provocando interesse no público. A área de alimentação grande e variada, com opções desde carrinho de pipoca até paella. Em conjunto uma área vegana para satisfazer todos os gostos.

Mercadinho. Foto: John Stan
Mini Arena “O Incrível e Sortido Teatro Mapati”. Foto: John Stan

Sinalização e Pesquisa

Conversando com várias pessoas no festival, pedimos para que apontassem dois pontos positivos no evento. Disparado saiu a sinalização. Acharam os painéis e as indicações muito boas. E em segundo lugar ficou com a pesquisa de satisfação e sugestões. O público achou honesto por parte da produção do evento criação de mecanismos para ele poder falar. Sugestões, elogios e críticas para as próximas edições, parece ser uma pauta importante para os frequentadores dos festivais.

Que venha o verão do amor!

Foto: John Stan
Foto: John Stan
Claudio Bull Por Claudio Bull

Claudio Bull é historiador da arte, produtor cultural, dj, vocalista e letrista da Superquadra e Da Silva

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