Review NOS Primavera Sound: Um Festival Com a Alma e Essência do Porto - Pulso

Review NOS Primavera Sound: Um Festival Com a Alma e Essência do Porto

Semana passada li em um review sobre o Primavera Sound Barcelona, algo que eu não poderia concordar mais: “festivais são mais do que apenas um local para montar palcos e tocar música. Eles são a chance de refletir uma cidade e colocar seu melhor em exibição”. Veio na hora certa, porque é exatamente isso que a edição de Porto do NOS Primavera Sound é. Um festival que tem a alma e a essência da sua cidade.

Porto é Design: Forma, Função e Emoção

Normalmente as cidades têm logo, brasão, cores e bandeiras. Mas Porto não. Porto tem identidade visual, pensada e construída a partir dos diversos elementos que a compõem: o rio, vinhos, peixes, natureza e arquitetura. Todo o processo de criação da marca está apresentado em um livro editado pela Câmara Municipal, que folheei despretensiosamente ainda em Lisboa. Já sabia que aquela cidade não era apenas mais uma.

Ao longo da semana outras pistas foram aparecendo. Primeiro, o festival publicou em sua fanpage uma série de vídeos que explora o universo da música sob o ponto de vista da cidade e dos seus criadores. Tem um professor de matemática falando sobre arquitetura e um artista plástico sobre música eletrônica!

Depois, recebo a notícia de que um serviço especial de What’sApp estava sendo montado pela Câmara Municipal para atender dúvidas dos turistas (cerca de 20% do público do festival era de estrangeiros).

Por fim, a mesma Câmara anunciou parceria com a startup local Lapa e distribuiriam localizadores de chaves personalizados com a marca Porto para os participantes do festival“É uma forma de activar a marca Porto e, simultaneamente, de promovermos a tecnologia e inovação made in Porto”, explica Nuno Nogueira Santos, da Câmara Municipal. Pronto, tudo isso antes de chegar e já admirando esse festival e essa cidade que nem conhecia.

Tamanho Certo, Local Wow!

O festival acontece no Parque da Cidade, cerca de 40 min do centro de Porto, com metrô e ônibus de fácil acesso. O serviço de transporte público também se adaptou ao festival, funcionando por 24h entre sexta e domingo.

Serviço de informações de transporte e venda de tickets de ônibus e metrô dentro do festival.

O local é lindo, uma mistura de natureza com festival urbano que raramente vemos por aí.

Gramados e árvores que naturalmente fazem a separação dos palcos, mar azul ao fundo e pôr do sol de tirar o fôlego.

Se tem festivais que a gente precisa disputar um banquinho, o NOS Primavera Sound é um grande picnic. Todos levam toalha e se espalham pelo chão. Durante o dia, os espaços são bem democráticos: quem quer dançar fica em pé na frente do palco. Quem quer relaxar e curtir, é só estender a toalhinha ao longo dos anfiteatro naturais em frente aos dois palcos principais.

O festival é de médio porte, com uma rápida caminhada entre os palcos. As vezes a proximidade foi um problema, pois em shows mais intimistas o som vazava para o palco do lado, como aconteceu durante a intimista apresentação do Sampha.

Coerência do Início ao Fim

Coerência é a palavra que define o NOS Primavera Sound. Line up, local, cenografia, público, comida, bebida e até os produtos das lojinhas do mercado! Tudo partilhando os mesmos códigos e a mesma vibe.

O público do festival era em sua maioria pessoas na faixa dos 30 anos, mas jovens com purpurina na cara também se misturava às famílias e crianças.

Portugueses eram a maioria, mas também ouvimos muito inglês e espanhol por lá.

O festival também tinha seu espaço para crianças, confirmando esse movimento que nós já falamos aqui e aqui. O espaço era parceria com uma marca de alimentos e a Santa Casa da cidade era parceira nas áreas reservadas para pessoas com deficiência (leia mais aqui sobre acessibilidade em festivais).

A marca Porto também estava presente dentro do festival. E de uma forma super jovem e descontraída, conectada com o público e com o ambiente do festival. Na entrada, nos postos de informação e nas áreas de descanso. Jovens sorridentes e simpáticos distribuíam informação, flores e óculos de papelão! E como se não bastasse, o prefeito da cidade estava presente na coletiva de imprensa do festival.

Comer e beber: afinal, é Portugal

Havia muitas opções de comida, para além do tradicional hambúrguer-fritas-pizza. Também havia food trucks veganos, trailer de uma marca natureba de Portugal, churrasco e até uma loja de doces para crianças (e não tão crianças)!

Como estamos vendo em vários festivais fora do país (hello Brasil!), ter marca de cerveja como patrocinadora não quer dizer restrição de bebidas. Além da cerveja tradicional, a marca Super Bock (local, do Porto) também montou um Bar Especial com rótulos artesanais.

Até a Coca-Cola tinha um bar temático com drinks alcóolicos e não alcóolicos produzidos com seus produtos. Mas pra mim, amante de vinho, o wine bar entregava a melhor experiência etílica, com mais de 10 títulos diferentes, entre branco, rosé e tinto!

Experiência Musical: Azeitona na Empada (por Franklin Costa)

Azeitona na empada é aquilo. Você gosta ou não. Poderia vir sem, mas tem gente que cisma em colocá-la.

Pessoalmente, curti as apresentações do NOS Primavera Sound (sou fã de azeitonas, oras).

Mas em alguns momentos, esta personalidade forte e sem concessões – característica marcante da curadoria deste festival – acaba também por impactar negativamente sua experiência musical.

Foi o caso de sexta-feira (09/06), 2º dia, quando praticamente todas as apresentações mantiveram um clima morno e, muitas vezes, monótono. Deste dia, salvou-se apenas a banda australiana Pond (curiosamente a que abriu o mainstage). Lisergia, energia e simpatia definem a apresentação.

Dalí em diante, ladeira abaixo. A queridinha do Pitchfork Angel Olsen apresentou um folk rock genérico chatinho à beça. Não consegui ver o Whitney, uma pena. Bon Iver, o headliner da noite, emocionou. É lindo, mas depois de meia hora se torna um tanto cansativo. Especialmente às 22h15 da noite numa temperatura de 14ºC. No Coachella, ele tocou mais cedo. Faria mais sentido.

Bon Iver – Foto: Hugo LIma

Tinha grandes esperanças que o Sketpa, rei do grime, fosse dar aquela animada da noite. Não deu. Burocrático, cantando uma música de cada vez, dando pausas… Ótimas tracks, mas faltou presença de palco.

Já era 1h da manhã quando o menino Nicolas Jaar subiu ao palco. Já havia me decepcionado com a apresentação dele no Dekmantel São Paulo (leia aqui). Deixei passar, um tanto apreensivo. Na carona de volta para Lisboa, já no domingo, um francês e um holandês me disseram que foi a maior decepção do festival. O motivo? De novo: a falta de timing entre longos momentos conceituais e a vontade da galera por pista.

A quinta-feira (08/06), 1º dia, também foi “ok”. Embora tenha sido o show mais quente da noite, esperava mais do Run The Jewels. Rolou um constrangimento quando o rapper EI-P confundiu Porto com Barcelona, tentou se corrigir e acabou mandando pior ainda. Flying Lotus foi uma das coisas mais bacanas que vi no festival. Mais maduro, jazzy e abstrato, com aquelas projeções hipnotizantes. Poderia ver 4 horas dele sem cansar.

Justice encerrou a noite (a quinta é mais curtinha), com um bailão de luzes e som, que passeia do disco ao french house, do techno ao maximal (veja o review do Ultra, quando eles estrearam a nova turnê).

Justice – Foto: Hugo LIma

Felizmente havia o sábado (10/06), último dia. Como a estratégia de ir cedo no dia anterior tinha dado errado, optamos por chegar um pouco mais tarde e acabamos perdendo a Elza Soares

Triste, muito triste… Mas fiquei feliz porque assim que cheguei escutei um português dizendo que tinha sido a melhor apresentação até então no NOS Primavera! #orgulho

Elza Soares – Foto: Hugo LIma

Cheguei pra ver o Sampha, que ao vivo tem uma voz tão linda quanto no álbum. É um dos grandes cantores desta nova geração. Mas seu show ficou exclusivamente focado no último (e primeiro) álbum. Deixar de lado os hits que o tornaram conhecido na parceria com o SBTRKT foi um fail. E, convenhamos, é um álbum bonito pra escutar em casa.

Dispensar hits foi exatamente o que o Metronomy não fez. Que apresentação!! Os caras – e a mina – estavam realmente inspirados. Quase que numa fórmula, tocavam cerca de 4 músicas na sequência, sem parar, sempre com um ou dois hits no meio. Pausa para a galera gritar. Recomeçam com a energia maior ainda. Esbanjaram simpatia e mostraram que já chegaram naquele ponto em que podem fazer uma apresentação inteira de “greatest hits”. Poderia ser o ponto alto do festival. Mas ainda havia uma surpresa.

Metronomy – Foto: Hugo LIma

A apresentação do britânico Richard D. James, mais conhecido por Aphex Twin, foi espetacular. O estado da arte da música eletrônica. Algo que não cabe em palavras e que levarei muito tempo ainda para processar. Perturbadora, provocante, sarcástica, irônica, inteligente e criativa. Acima de tudo, original como se fosse a primeira vez que escutasse um novo gênero musical.

Não teve hit. Não teve “obrigado”, “boa noite”, “Porto é a cidade que mais amo”, blablabla… Foi puramente música, projeções (12 telas no palco + 2 laterais) e lasers. O cara tocou TUDO: techno, house, trance, hardcore, trap, ambient, electro, grime, dubstep… you name it. Mas sempre autoral, com aqueles timbres, glitches e synths que o definem.

Sobre a parte visual, basta dizer que ele trollou (literalmente) políticos, modelos e celebridades como o jogador português de futebol Cristiano Ronaldo e até o vencedor do Eurovision Salvador Sobral. Isso tudo sem perder o equilíbrio entre a pista e os momentos para além de conceituais. Aprende, Nico.

Aphex Twin

Gênio. Gênio. GÊNIO!

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Nota Final

Ao longo de mais de um mês por aqui, já ouvi algumas vezes que “o Português não sabe se vender”. Perto de toda a fama e holofotes do Primavera Sound Barcelona, o irmão português acaba ficando um pouco apagado. Mas depois de conhecer o NOS Primavera Porto, estou começando a achar que deve ser mesmo proposital. Vale a pena deixar esse segredo escondido por mais um tempo.

Carol Soares Por Carol Soares

Don't ask about my job. Don't ask what I do. Judge the way I dance.