OCLB Trends: porque a arte é a nova gastronomia

Pulso Trends: porque a arte é a nova gastronomia

Cool hunters vão às ruas para reconhecer padrões que viram tendências e novas formas de consumo. Nós vamos a festivais para entender comportamentos, culturas e movimentos contemporâneos.

Nos especializamos em observar sinais. Analisamos e “damos ordem ao caos”. Assistimos às milhares de pessoas, com milhares de histórias e origens diferentes, reunidas ali, nestes microcosmos temporários, em busca de experiências intensas, autoexpressão e um senso de efervescência coletiva. 

Mais que uma série de comportamentos que acontecem no espaço-tempo de um evento, destacaremos na série OCLB Trends os movimentos que extrapolam os limites da pista de dança. Apontam caminhos para novas experiências de consumo, estilo de vida e sociedade. 

Preparadxs?

A primeira onda: gourmetização nos festivais

Se você frequenta festivais há uns 10 anos ou mais, responda rápido: que tipo de comida era servida nesses eventos?

Aposto que você falou pelo menos um destes três: cachorro quente (“dogão”), pizza e hambúrguer. E é verdade. Até pouco tempo, não havia uma opção diversificada de comidas nesse tipo de evento.

No Rock in Rio de 1985 já rolava espaguete gourmet…

Daí, vieram os programas de culinária e o MasterChef, os blogs e vlogs de gastronomia e até a Disney entrou na onda com o Ratatouille. O GNT, canal de notícias e documentários em sua origem, mudou o foco para a moda na virada do milênio, e desde o início desta década passou a ser um canal que dedica a maior parte de sua programação a chefes-celebridades e reality shows de comida. 

O resto você sabe: o bolinho virou cupcake. O picolé, paleta mexicana. A tapioca, “tapi”. E a comida, funcional. O raio gourmetizador foi lançado sobre a cozinha (quer dizer, gastronomia). Ela ocupou o lugar da moda. Aliás, ela é “a” moda dos dias de hoje.

O fenômeno, claro, chegou aos festivais. No Brasil, o Lollapalooza São Paulo foi o primeiro a sacar essa ideia e em 2015, inaugurou o Chef Stage, uma praça de alimentação com pratos assinados por chefes famosos.

Chef Stage no Lollapalooza

No mesmo ano, o Lolla espalhou ao longo do Autódromo de São Paulo uma série de food trucks. Fizemos uma pesquisa durante o festival e um de nossos entrevistados resumiu a experiência: “Muito bacana vir num festival e encontrar um line-up de comidas.”

Food Trucks no Lollapalooza 2015

De lá pra cá, os festivais vêm investindo cada vez mais em uma oferta diversificada de experiências gastronômicas, muitas vezes mirando o consumo de luxo. O Tomorrowland Brasil, por exemplo, em sua estréia no país ofereceu um menu gourmet assinado por um chefe holandês premiado pelo Guia Michelin.

Experiência Gourmet no Tomorrowland Brasil

O Bananada, no centro-oeste do Brasil, promove um evento paralelo ao festival – o Circuito Gastronômico Goiânia Rock Citycom pratos criados especialmente para o evento e vendidos em diversos restaurantes da cidade. E até o Rock in Rio entrou na onda e, em 2017, ofereceu pela 1ª vez o Espaço Gourmet.

Rapidamente, comida diferenciada, experiências gourmet de luxo e food trucks viraram commodities nos festivais. Especialmente na Europa e nos Estados Unidos, mercados competitivos e mais maduros que o do Brasil, este tipo de experiência demanda um planejamento cada vez mais exigente por parte do público.

Festivais como o Coachella oferecem a cada ano uma curadoria gastronômica tão bem planejada como seus line-ups. O mesmo pode-se afirmar com o cuidado de sua divulgação.

Coachella – um sonho de praça de alimentação

Outros, como o Roskilde na Dinamarca, buscam apresentar uma oferta de comidas e bebidas 100% orgânica. Em 2017, 90% do consumo em todo o festival foi de produtos orgânicos.

Se a oferta de comida e artistas se torna cada vez menos diferente entre os festivais,  qual é a próxima onda?

A próxima onda: arte é a nova gastronomia 

Estivemos presentes em 19 festivais em 8 países em 2017. Entre os repetidos padrões de sinais que observamos nesses eventos, reparamos que um deles destacava-se acima dos demais: a invasão da arte nos festivais.

– O SXSW, principal festival de inovação e criatividade dos EUA, apresentou pela primeira vez em 2017 um Art Program Lineup, constituído de 5 instalações de arte contemporânea.

Infinity Room por Refik Anadol no SXSW

– Desde o início da década, o Coachella investe em instalações artísticas gigantescas como parte da cenografia do festival. Mas, em 2017, pela 1ª vez a produção destacou o nome das obras com uma biografia dos artistas no festival e em sua comunicação. Exatamente como acontece em exposições de arte em museus.

Artistas nas últimas linhas do line-up. Antes, nem apareciam no cartaz

– O Burning Man, festival-cidade-temporária-sem-traços, não anuncia um line-up. Colaborativo, suas atrações principais são as instalações artísticas criadas por artistas convidados. O evento é tão grande que chegou a virar um episódio dos Simpsons

– Na Europa, o Roskilde, na Dinamarca, apresentou também pela 1ª vez o espaço KlubRÅ, um projeto interdisciplinar que combinava música e arte apresentando uma nova proposta de experiência clubber. O release da programação de arte desse festival apresenta não menos que 46 páginas de conteúdo

Performance provoca discussões sobre gênero e sexualidade com lasers disparados pelo esfíncter anal durante o KlubRÅ

– O Sónar Barcelona sempre trouxe a arte como parte de sua campanha de comunicação. Mas, em 2017, paralelo ao festival, promoveu uma exposição da Bjork. A própria artista foi convidada para apresentar um DJ set para a abertura do happening.

Bjork – Sónar Festival 2017

– O Neopop Festival, em Portugal, também realizou uma exposição, chamada Art of Techno, com quadros pintados por dançarinos ao ritmo das produções dos artistas que se apresentaram no festival. Os quadros começaram a ser comercializados no início de 2018.

Para ficar de olho  

A arte não mais é um mero elemento cenográfico dentro dos festivais. Em muitos casos, é o principal elemento de distinção entre um evento e seus concorrentes.

Life Is Beautiful Vegas. Foto: © Erik Kabik

Com a popularização da arte nos festivais, o público torna-se mais sensível a esse tipo de expressão. Não apenas focada em alta tecnologia – como é o caso do Panorama Festival – dos mesmos produtores do Coachella, em Nova York.

Mas também, e principalmente, em produções sustentáveis, colaborativas e interativas, como as do Burning Man ou Wonderfruit na Tailândia (leia aqui o review).

Wonderfruit dá aula em arte e sustentabilidade

Apostar em arte é investir em conteúdo. O retorno vem em mídia espontânea (earned media) e reputação.

Já dizia a música: a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte.

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Curtiu? Este é um post da série OCLB Insights. OCLB é um programa intensivo de experiências, conteúdo e conexões sobre o futuro do entretenimento. Entre Abril e Maio de 2018, estaremos em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Se ficou interessando, me manda um email: franklin@projetopulso.com.br

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