Pulso Insights: Porque o Bananada É o Festival Brasileiro Que Você Precisa Conhecer - Pulso

Pulso Insights: Porque o Bananada É o Festival Brasileiro Que Você Precisa Conhecer

Colaborou: Matheus Attiê

Acredito que o Caetano Veloso e o Gilberto Gil devem dormir tranquilamente, devido à certeza de terem feito o trabalho bem feito.

Mas porque começar um texto sobre o Festival Bananada 2017, evocando Gil e Caetano?

Bem, diante da “Geleia Geral” que o festival se tornou, nada mais justo do que, vir à lembrança os nomes dos grandes baianos. Gil apareceu em vários sets dos dj’s com a dançante e badalada “Toda menina baiana”.

No show dos neos-“Mutantes” (prefiro tratar assim, por permite liberdade poética para o Sérgio Batista reorganizar a banda), Gil reapareceu em “Batmacumba”, além de ser uma eminência parda no som do BaianaSystem  e seu electroaxé.

Sergio Dias, dos Mutantes, e Fabrício Nobre, fundador do Bananada. Foto: João Stangherlin

Caetano, por sua vez, se fez presente, na enxurrada de bandas cantando em inglês,  nas canções  no show dos Mutantes, na presença da sua afilhada Maria Gadú, e no melhor momento na cover ou citação da canção “Joia”, no hipnotizante show do Teto Preto.

Teto Preto – Foto: João Stangherlin

Depois desta breve introdução, posso tecer algumas observações relativas ao ótimo Festival Bananada e o que ele pode nos propiciar: uma colcha de retalhos da atual cena musical brasileira, que desfilou pelos palcos do Bananada no período de 08 a 14 de maio, em vários pontos da cidade e culminando no final de semana,  no Centro Cultural Oscar Niemeyer.

Tradição

No contexto da era dos festivais que pululam no Brasil no início do século XXI, o Bananada apresenta, seguramente, uma longa história e pode gozar de ter solidificado seu no circuitos dos festivais.

Já fazem 18 anos que ele começou no pequeno palco da casa Território Brasileiro, e chegou em 2017 com os mega palcos Skol e Chilli Beans.

Muito do heroísmo indie do passado se encontra sintonizado com as mudanças e exigências do mercado.

Essa atualização da visão e curadoria que se formou gradativamente deu ao evento contemporaneidade e longevidade, que foi ao Centro Cultural Oscar Niemeyer, pode viver isto.

Fragmentação

O Festival entendeu a crise do rock brasileiro e absorveu as propostas estéticas do momento ora “mpbisticas”, “tropicalizantes”, “sambanovistas”, eletrônicas, blacks, hip hop, guitar, genoromusic, e por aí vai…a onda é essa!

Não dá mais para esperar, em um país com tantos problemas estruturais, um festival especializado, apenas em algum tipo de som, que não faz pressão ou presença no mercado.

Karol Conka – Foto: João Stangherlin
Boogarins – Foto: João Stangherlin

Porém, o festival não abandonou este segmento e quem conferiu os palcos Spotify e Slap sentiram a força do indie heróico nacional.

Hospitalidade

Um dos pontos altos do festival. Todo mundo com cara boa e sorrindo. A equipe bem treinada atendia com o máximo de simpatia e atenção. Desde a compra de um chopp, para ir ao banheiro ou pedir informações.

Foto: João Stangherlin
Foto: João Stangherlin

A hospitalidade goiana é nota 10. Além disso, o público foi bastante receptivo com as atrações. E uma surpresa: a água de graça.

Isso mesmo! Imagina você não ter que gastar dinheiro com água. Ela foi distribuída para todo mundo à vontade.

E no último dia, 14 de maio, como era dia das mães, foi oferecido um mimo elas, a entrada gratuita. Como não ser simpático ao festival goiano?

Diversidade

Tendo como objetivo divulgar música e marcas e outras coisas mais, os festivais no Brasil, e acho que no mundo, se transformaram, também, em um palco percebermos algumas modificações comportamentais.

As clássicas manifestações políticas se aliaram às reivindicações afetivas e de gênero. Está em processo, e o ambiente e as experiências que os festivais proporcionam um local propício para o seu desenvolvimento, de uma inovação das relações interpessoais.

Foto: João Stangherlin
Foto: João Stangherlin

A outrora família nuclear está cedendo espaço e convivendo com a manifestação singular do indivíduo, sem que alguém fique dando palpite na vida ou comportamento do outro, a tônica é cada um na sua. Não é uma coisa tímida, é em larga escala, e acho que sem volta.

Quero dizer que tinha todo tipo de casal, look, pose, circulando ao lado de playboys bem trabalhados nas academias, casaizinhos bonitinhos do “tipo do interior” sem nenhuma treta, isso em uma cidade que tem a fama de ser conservadora.

BaianaSystem

Sem sombra de dúvidas, o melhor do Festival e do Brasil, atualmente. É como se um DJ set fosse executado por uma banda. Pitadas de tudo que faz o povo dançar, com vigor e energia.

Galera insana durante o show do BaianaSystem – Foto: João Stangherlin

Guitarrinhas baianas, batidas de eletro ou funk, axé, raï, raggamuffin, dancehall, reggae, vocais e letras a la “O rappa”, projeções que fazem referências a um tipo de construtivismo russo baiano com planos de cor pura em azul, máscaras geométricas para a plateia, o papo rasta sobra a Babilônia, um balaio de gato.

A última vez que vi uma coisa dessas foi com o Chico Science e a Nação Zumbi nos idos 1994. Wow!

Palco El Club

Poderia ser maior. Alguns dos momentos mais vibrantes que vi, foi naquele palco. Fica a sugestão, para no próximo ano, um cuidado especial com a cultura eletrônica.

Jaloo – Foto: João Stangherlin

Sets maravilhosos como o do DJ Barata aka Criolina (com participação do Dj Ops), deixaram o público louco, numa sequência que colocava Raimundos, Pabllo Vittar e sertanejo no mesmo patamar.

Outra ótima apresentação neste palco foi o Jaloo, com plateia cativa e cantando os hits, o músico criou um   climão cabaret kitsch eletrônico.

Casulo

Uma cria do Festival Bananada é a loja Casulo. A idealizadora Milleide Lopes, 26, explica que “a Casulo praticamente se iniciou dentro do festival. A gente faz questão de participar pela historia do festival e pela conexão com o cliente. Para os clientes é um ponto de encontro”.

O espaço ocupado pelo Casulo, além de vender os produtos para as bandas, possui salão de cabeleireiros, roupas, objetos de arte, design e beleza.

Milleide acrescenta que a Casulo “vive essa cena da economia criativa e alternativa. E este ano esta sendo o melhor momento da loja no festival”,   e  completa: “a Casulo não tem cara de feira a intenção é ter cara de loja, dentro de um festival.”

Foto: João Stangherlin

Shows

O quarteto paulista Teto Preto fez uma das melhores apresentações. Uma mistura de techno/house (os pianinhos são ótimos!) com coisas brasileiras num ótimo ritual antropofágica.

Tocaram “Gasolina”, a música do conhecido vídeo com teor político, com uma letra cinematográfica e cheia de referências e colagens ao Cinema Novo (Terra em Transe), Roberto Piva (poeta beat paulistano) e citações do evangelho de João.

Os covers de “Já deu pra sentir”, de Itamar Assunção e “Joia”, de Caetano Veloso. Foi muito bacana escutar os versos de  Caetano,  “Beira de mar/Beira de mar na América do Sul/ Um selvagem levanta o braço”, em diálogo com os beats.

Outras apresentações foram muito boas também, como  Mano Brown, e o seu soul funk,  com um aquele magnífico domínio de palco, o Forgotten Boys, e o seu noise anos 1990,  Romperayo da Colômbia, e um verdadeiro show de cúmbia  e as bandas Wry, Koogu e Plutão já foi Planeta.

Mano Brown – Foto: João Stangherlin

É muito bacana, sem ser ufanista estar em festival que os artistas brasileiros são os readliners e não pequenas notinhas que tocam as 13 horas para ninguém.

Ambientação e Cenografia

O Centro Cultural Oscar Niemeyer é cenográfico. Suas grandes paredes brancas facilitou as projeções e intervenções visuais bem elaboradas.

O uso de madeira reciclável nos bares e na praça de alimentação foi uma boa solução acompanhado pelo bom design das lixeiras com estruturas de madeira e sacos.

Pista de skate, lojinhas e área para tatuadores compunham o ambiente do Festival.

Foto: João Stangherlin

Estrutura

A estrutura do evento apostou no gosto do público. Os palcos divulgam as marcas patrocinadoras sem ser apelativo. Conversando com o público pude perceber que a estrutura agradava.

Daniela Ferraz, 19, estudante de direito, foi pela primeira vez ao Festival, “a estrutura é linda e divertida. Quero ver a banda Scalene, no palco Skol”.

Já Antônio Carlos, 20, estudante de engenharia civil comentou que “devido à estrutura atraente e a organização, comprei o ingresso e estou aqui”.

Não conheço nenhuma banda, mas quero participar do festival e descobrir coisas”. Gabriela Macedo, 20, estudante de pedagogia, emenda: “esta estrutura só é possível por cauda dos patrocínios, é importante ter os patrocinadores”.

Porém, algumas críticas surgiram como a questão do banheiro, vários entrevistados acharam distantes os banheiros, e achavam que poderiam existir em vários pontos de festival.

Segundo Eduardo Souto, 22, estudante de administração relatou que “há falta de privacidade no banheiro masculino. Não gosto de entrar no banheiro e todo mundo ficar encarando o que vou fazer”.

No mais, críticas foram feitas aos seguranças, que muitas vezes agiam como grosseiros, não resolvendo problemas ou dando informações e culpando a produção por problemas que eles podiam resolver. Mas isto se resolve no próximo.

Foto: João Stangherlin

Que venha a Bananada 2018!

Claudio Bull Por Claudio Bull

Claudio Bull é historiador da arte, produtor cultural, dj, vocalista e letrista da Superquadra e Da Silva

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