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Pulso Insights: Festival Tem Idade?

Foi divulgado na semana passada a primeira edição do Desert Trip, festival que acontecerá em outubro, organizado no mesmo local e pela mesma produção do Coachella. O anúncio despertou atenção por reunir em um mesmo line-up grandes estrelas do rock como The Rolling Stones, Bob Dylan, Paul McCartney, Neil Young, Roger Waters e The Who.

Muito além de uma combinação imperdível de atrações, o line-up também foi colocado em foco a partir de uma outra perspectiva: a faixa etária dos headliners. Além de ter inflamado o desejo e interesse de um público que não costuma mais frequentar festivais de música, as atrações septagenárias despertaram manifestações hostis de discriminação nas redes sociais, sendo o evento apelidado de “Oldchella”.

Afinal, festival tem idade?

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Paul, Mick e Bob: headliners dos sonhos

Festivais como sinônimo de juventude

O modelo de festivais de música pop que se floresceu a partir dos anos 60 como produto da então nascente indústria cultural jovem moldou e midiatizou uma identidade juvenil a partir de elementos como música, moda, arte, drogas e viagens.

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Woodstock, 1969 

Este modelo foi continuamente adaptado nas últimas décadas e explodiu na virada do milênio com versões capazes de atender (e criar) desejos e comportamentos para a geração nascida entre 1980 e 1996, os chamados Millennials.

Com forte identificação com artistas pop, experiências musicais intensificadas por locações inusitadas como parques temáticos e destinos exóticos, presença de grandes marcas patrocinadoras e forte cultura digital, os festivais foram ressignificados como espaços de interesses convergentes para uma geração global conectada.

Entretanto, com o crescimento e proliferação desses eventos, crescem as críticas sobre a pasteurização e comoditização dos festivais, com uma dificuldade crescente de encontrar headliners que não se apresentem em série em diversos eventos e pelo aumento exponencial dos cachês dos artistas.

Quem se interessa por festivais?

Uma análise feita por Will Page, diretor do Spotify indicou que a idade média dos headliners em nove festivais ingleses vem gradualmente aumentando desde 1996.

Parte da explicação, segundo o artigo do The Economist parece ser o fato de que o público frequentador também está envelhecendo: de acordo com Festival Insights, publicação da indústria britânica, a idade média dos participantes de festivais de música no Reino Unido em 2014 foi de 33 anos.

Por outro lado, embora o crescimento dos festivais de EDM, como Tomorrowland, Electric Daisy Carnival e Ultra, seja prioritariamente associado a públicos mais jovens, informações publicados pelo Google mostram que apesar do público com até 25 anos ser o que mais consome EDM no YouTube, audiências mais velhas também têm aumentado o interesse por esse gênero.

Ano passado fizemos uma pesquisa com os leitores do Pulso e daqueles que responderam ter participado de pelo menos um festival de música em 2015, 10% tinham 35 anos ou mais. Essa faixa etária representou 10% do público do Tomorrowland, 13% do Rock in Rio, 15% do Lollapalooza, 23% do Popload e 26% do Sónar.

No Rock in Rio 2015, a idade média dos participantes foi de 27,8 anos. Embora as características demográficas sejam claramente diferentes entre os dias de acordo com as atrações, os diálogos, comportamento e atitudes dos participantes tendem a se colidir.

Em nossa pesquisa, conversamos com quase 200 pessoas de diferentes idades e observamos uma certa unidade no que se relaciona às motivações para participar do festival. O envolvimento dos participantes com música transcende os grupos etários e mesmo sendo um festival bastante tradicional, o Rock in Rio reflete questões contemporâneas como quebra de estereótipos relacionados a idade e conceito de gerações.  

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Rock in Rio 2015 (Imagem: Rafael Medina)

A sua idade diz algo sobre você?

Ainda que fortemente moldados sobre uma identidade juvenil, os festivais podem não apenas refletir uma faixa etária dominante, mas sim uma perspectiva diferente sobre o que é ser jovem.

Enquanto a maior parte das audiências de festivais de música são ainda compostas por uma faixa etária considerada bem jovem, esses eventos não são programas exclusivos da juventude no seu sentido mais tradicional. Na pesquisa que realizamos durante o Tomorrowland 2015, por exemplo, conversamos com um casal de São Paulo, ambos na faixa de 50 anos e que curtia o festival com os amigos, já que os filhos, com 18 e 19 preferiam outros tipos de diversão, como dança de salão.

As pessoas – de todas as idades e em todos os mercados – estão construindo suas próprias identidades mais livremente do que nunca. Como resultado, os padrões de consumo não são mais apenas definido pelos segmentos ‘tradicionais’ demográficos, como idade, sexo, localização, renda , situação familiar e muito mais.

Vestindo uma camiseta do Bastille, banda de indie rock inglesa que havia se apresentado no Lollapalooza, também conheci o Afonso durante o Tomorrowland 2015. De lá pra cá, ele também esteve no Rock in Rio, Sónar, Electric Daisy Carnival, Lollapalooza e Tomorrowland 2016, além de já ter participado de diversos festivais também fora do Brasil. Um detalhe irrelevante é que ele tem 62 anos.

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Afonso no Tomorrowland Brasil 2016 (Imagem: Acervo Pessoal)

De acordo com George Ergatoudis, da Radio BBC1, se você olhar para a lista das 1.000 artistas favoritos para pessoas de 60 anos de idade e os 1.000 artistas favoritos para aqueles com 13 anos de idade, existe uma sobreposição de 40%, e que aumenta para 50% se analisarmos os artistas preferidos de pessoas de 30 a 39 anos e de 13 a 19 anos. Ou seja, a música cada vez mais transcende as tradicionais categorias etárias.

Embora a música e especialmente o rock pareça ainda ter dificuldades de lidar com o envelhecimento dos seus ídolos, outros setores como a moda, vêm gradualmente declarando a morte da idade, reavaliando estereótipos tradicionais da moda como juventude e padrões de beleza, associando estilo a personalidades e públicos mais seniores, enaltecendo o envelhecimento como um diálogo possível entre presente e futuro.

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Rock in Rio 2015 (Imagem: Rafael Medina)

Entretenimento para quem?

Em cerca de 15 anos, Brasil terá mais velhos do que jovens. Estima-se que após 2030, o contingente acima dos 60 será maior do que o de crianças e adolescentes de até 14 anos. Essa nova configuração populacional exigirá ajustes sociais complexos e terá influência direta em todas as esferas da sociedade, como mercado de trabalho, saúde, habitação, mobilidade e lazer.

Atualmente, pesquisas de comportamento e consumo com “adultos experientes” mostram que eles não se identificam com as imagens e comportamento que a mídia atual associa a eles. A geração transgressora nos anos 60 está dando um novo significado ao que entendemos por envelhecer, valorizando e buscando experiências que consideram prazeirosas, como as viagens.

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“Vovó Techno” é fã de festivais de música eletrônica (Imagem: Humans of New York)

Se vamos precisar renovar conceitos sobre sobre saúde, beleza e relacionamentos para adequá-los aos desejos e anseios de um país cada vez mais maduro, é importante que a indústria do entretenimento também esteja olhando para outras formas de consumir diversão.

É claro que o modelo “perrengue” de festivais com lamas, filas e caminhadas intermináveis pode não parecer mais tão atrativo depois de certa idade. Mas para muitas pessoas, entretanto, já não parece ser desde 0s 20 anos! Mas, intencional ou não, consequência de uma necessidade do mercado ou não, é fato que as implicações do line up do Desert Trip tocam na fragilidade da noção de juventude associada a esses eventos. Com o mercado internacional cada dia mais saturado pelas mesmas atrações e experiências, o festival pode ter aberto as possibilidades para se pensar entretenimento musical voltado para o público adulto.

Carol Soares Por Carol Soares

Don't ask about my job. Don't ask what I do. Judge the way I dance.

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