Meio Palco, Meio Palanque

Meio Palco, Meio Palanque

Era de manhã quando Jimi Hendrix finalmente subiu ao palco de Woodstock para tocar. Não foi qualquer apresentação (acho que com Jimi Hendrix nunca era). Mas esta, em especial, marcou pelo forte significado político. Hendrix mandou uma versão “bad trip” e sarcástica do hino dos Estados Unidos, com a melodia original sabotada por violentas intervenções nas cordas e nos pedais. Espanto geral: o homem havia conseguido a proeza de tirar na guitarra as bombas e gritos de horror da guerra do Vietnã.

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Jimi Hendrix 

Hoje respeitáveis instituições da sociedade, os grandes festivais de música popular nasceram em clima de contestação política, símbolos de uma geração que questionava poderes e costumes estabelecidos, rejeitando a guerra e a violência do estado.

Para a maior parte da geração Woodstock, não era necessário subir em palanques ou carregar faixas. Em 1969, usar cabelo comprido era em si uma manifestação, uma declaração de que você se situava no diâmetro oposto do sistema regente. Passar três dias em uma fazenda tomando psicodélicos e ouvindo guitarras amplificadas era então se alistar no fronte da revolução sensorial que iria mudar o mundo.

Menos conhecido e mais focado foi o Harlem Culture Festival, conhecido como o “Woodstock negro”. Promovido no tradicional bairro negro de Nova York, foram seis fins de semana de música, auto-afirmação e ativismo entre julho e agosto de 1969. Os Panteras Negras fizeram a segurança e o palco recebeu gente como Sly and the Family Stone, Stevie Wonder, B.B. King e Nina Simone.

Nina Simone 

O inglês Glastonbury e o dinamarquês Roskilde surgiram no início da década de 70. Enraizados no movimento da contracultura, suas primeiras edições eram basicamente campings bicho-grilo onde se dançava ao lado de cavalos. Glastonbury chegou aos anos 80 com a veia política ativa ao se associar ao CND, campanha pelo desarmamento nuclear. Hoje, os dois festivais hoje estão entre os principais do mundo e são potências comerciais.

No Brasil, o primeiro grande festival da história do país, o Rock In Rio, veio impregnado de subtexto político. Realizado um ano depois das passeatas pelas Diretas Já, em 1985, com um país sedento por democracia e um novo rock com letras engajadas sobre gente inútil e tanques armados, o evento sonorizou o fim de 20 anos de ditadura militar. No mesmo 15 de janeiro do início do festival, o Congresso havia escolhido Tancredo Neves como primeiro presidente civil da nação em duas décadas. Cazuza, no palco, lembrou: Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã, um Brasil novo.

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Cazuza no palco da 1ª edição do Rock in Rio

A música eletrônica aderiu ao formato dos festivais nos anos 90. E quando menos percebeu estava também fazendo política. Dois momentos são fundamentais: a Love Parade, que surgiu como celebração do fim do muro de Berlim e de uma nova Alemanha, e o festival livre de Castlemorton, na Inglaterra. As reações das autoridades a ambos não poderiam ter sido mais distintas: enquanto a Love Parade virou um evento de milhões apoiado pelas autoridades, Castlemorton, que reuniu 40 mil pessoas no boca a boca e foi assunto de reportagem escandalizada nos jornais da TV, foi decisivo para o governo britânico introduzir um rigoroso pacote de leis contra raves e reuniões sem alvará.

E hoje? Numa era em que predomina o ceticismo de quem já viu tudo e onde qualquer nova onda é rapidamente assimilada comercialmente,é possível um festival traduzir um anseio de mudança maior na sociedade ou de carregar um forte simbolismo político?

A pergunta merece um zoom out para abarcar a música como um todo. Alguns anos atrás, eu diria que a resposta seria um sonoro não. Hoje, dá pra relativizar. Fico com um exemplo local: o interessante movimento de festas paulistanas que vêm ocupando espaços degradados no Centro ou mesmo praças e ruas e que representa uma promissora convergência entre política, cultura e reconquista da cidade.

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