Entrevista: "O Festival Mais Plural do Brasil", Bananada - Pulso

Entrevista: “O Festival Mais Plural do Brasil”, Bananada

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O Bananada vai comemorar sua décima oitava edição entre os dias 9 e 15 de maio, em Goiânia. O festival, como de costume, se dividirá por toda a cidade e ocorrerá paralelamente em casas de shows, teatros e bares, levantando a bandeira de alguns selos independentes, dentre eles Heart Bleeds Blue, Falante, Fósforo Cultural, Mandinga/Propósito, TILT, Honey Bomb e Balaclava. Além disso, também contará com uma programação regular, realizada no final de semana, através de dois palcos montados no Centro Cultural Oscar Niemeyer.

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As atrações seguem a linha plural característica do evento e os destaques ficam por conta de Jorge Ben, Planet Hemp, Omulu, Liniker, Mahmundi, Hellbenders, Molho Negro, Autoramas, Juçara Marçal, Silva e, é claro, o set em conjunto dos veteranos DJs Renato Cohen, Mau Mau e Anderson Noise. Só pra constar, o festival bateu seu próprio recorde este ano ao atingir a marca de 75 artistas no lineup e, como se não bastasse, chega com duas novidades: irá reproduzir a tradicional Casa do Mancha, de São Paulo, em um espaço próprio, e lançará o Meninada no Bananada, local voltado para atividades educativas focadas nas crianças, enquanto os pais curtem na pista.

Para contar um pouco mais do surgimento de um dos maiores festivais de música do país, o processo de curadoria, o engajamento das redes sociais e até a parceria com o Primavera Sound, em Barcelona, conversamos com Fabrício Nobre, idealizador do Bananada. O resultado você confere logo a seguir.

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(PULSO) Antes de tudo, de onde surgiu a ideia do Bananada e como rolou essa evolução ao longo dos anos até chegar ao que é hoje, um dos eventos de música mais importantes do país?

(BANANADA) A ideia do Bananada surgiu como uma festa, um festival pras bandas que eram amigas da galera do selo que eu tinha no final dos anos 90, chamado Me and My Monkey Records, e das bandas amigas da galera da minha banda, o MQN. Começou como uma festa pra chamar os amigos de fora de Goiânia pra tocar com a gente e era um festival bem pequeno, sem muita pretensão.

A evolução se deu naturalmente. A gente tá fazendo há 18 anos e sempre realiza uma coisa de cada vez. Nos juntamos com a galera da Monstro Discos, viramos meio que um irmão mais novo do Goiânia Noise e enfatizamos na produção de Goiânia mesmo, cada vez mais quente. Aí pudemos trazer coisa legal de fora e a galera foi se engajando, se identificando com a ideia.

A identificação com a cidade também é muito grande, acho que por isso ficou como tá agora.

(PULSO) Você sentia a necessidade de um festival que contemplasse um público mais plural e que também desse espaço às novas bandas nacionais, especialmente de Goiânia, consolidada como um dos grandes “centros” do rock brasileiro?

(BANANADA) Acho que a pluralidade sempre foi uma característica do Bananada. É o rock alternativo de sua maneira mais ampla: do eletrônico ao pop, do ultra indie ao hardcore, mpb ao jazz. A gente sempre quis mostrar uma abrangência daqui mesmo. Esse ano, por exemplo, temos bandas de jazz e também de stoner rock, uma coisa bem variada, djs e tal. Eu sempre quis muito isso e acho que estamos conseguindo. Também queríamos consolidar a gastronomia, as artes plásticas, skate, tatuagem, audiovisual. Vamos pra onde for o limite!

(PULSO) Depois da fundação d’A Construtora Música e Cultura, como ficou a divisão entre o curador e o booker? Os ofícios se misturam um pouco ou você tenta separá-los bem?

(BANANADA) Pessoalmente, eu sempre fui músico, dono de selo, agente, booker, produtor, gestor público de cultura. Na verdade, essa ação de agente cultural é uma coisa só, principalmente nos países latino-americanos ou onde a indústria não tá muito consolidada. Você precisa dar seus pulos pra que as coisas se fortaleçam e isso é muito importante pro Bananada, porque eu aprendo a lidar com todos os aspectos.

Hoje em dia, tem tanto especialista trabalhando que às vezes parece que não sei em detalhes mais de nada (risos).

Mas, se for um evento pequeno, eu consigo programar, ter ideias de divulgação, entender qual que é o material técnico, negociar as coisas, enfim, essa multifuncionalidade ajuda.

(PULSO) Nesse ano, o evento contará com artistas diferentes até em gerações, como Jorge Ben, Planet Hemp e Liniker. Como é feita essa curadoria?

(BANANADA) A abrangência da curadoria do ponto de vista geracional é uma coisa que a gente sempre quer manter, sempre tentamos trazer artistas clássicos, seja do punk dos anos 80, do indie dos anos 90, clássicos da música brasileira e até do rock alternativo mundial, tipo J. Mascis com Caetano Veloso. Nosso plano é ser cada vez mais amplo no aspecto estilístico, com hip hop, eletrônico, jazz, rock, pop, post-rock, nova mpb… A gente foca em coisas novas, novíssimas, e também no que é referencial.  Isso tudo faz parte da nossa curadoria.

Caetano Veloso, Bananada 2015.

Caetano Veloso, Bananada 2015.

(PULSO) Como é a interação com o público do Bananada? Você costuma levar em consideração as sugestões e o engajamento em redes sociais do festival na hora de definir o lineup?

(BANANADA) A gente tá sempre ligado no que tá acontecendo. Eu já sou um tiozinho, não gosto de mais tantas coisas! (risos) Então, assim, notamos radares do público e da rede, a gente sabe o que tá acontecendo e fica ligado.

Tem todo um time também ao redor, temos estagiários de 19 anos, meninas, meninos, gente que gosta de eletrônico, de thrash metal, gente que odeia tudo (risos).

Temos radares mesmo, gente que indica e também fazemos pesquisas quando viajamos Brasil afora.

(PULSO) O Bananada preza muito pela experiência, certo? Há uma integração muito interessante com artes plásticas e audiovisuais, gastronomia, entre outros tipos. Você acha que esse “modelo” é um caminho natural pros festivais?
Na sua opinião, a música vem perdendo um pouco o destaque nesse tipo de evento ou simplesmente se adapta a uma nova realidade?

(BANANADA) A gente preza pela experiência de arte mesmo e de música. Claro que a gente quer criar um ambiente para que as pessoas se divirtam, mas tudo isso pra elas terem a melhor experiência de música possível. A gente não tem área VIP, nem parque de diversões.

A gente quer conforto, um bom atendimento, uma praça de alimentação bem feita, uma experiência visual interessante para que aquilo reflita o som, uma tranquilidade pro cara que é mais velho ou tem filhos levar a família. Criamos um ambiente de experiências muito interessante para a pessoa ouvir música do melhor modo, com o melhor bar possível e comida também.

Prezamos pelo conforto pra galera ficar muito tempo no evento, curtindo a programação musical de todos os tipos, desde o espaço pequeno da Casa do Mancha pra 100 pessoas até teatros a semana inteira. Mesmo a música que acontece na pista de skate ou num dj set. A gente cria experiências e conforto para que as pessoas tenham a melhor sensação possível ao consumir arte e música.

(PULSO) Como funciona a parte das ações nacionais em festivais de fora, como o Primavera Sound? Você pode contar um pouco desse processo?

(BANANADA) Eu trabalho com uma ação de intercâmbio com música, levar e trazer arte de fora pro Brasil. O MQN, talvez, foi uma das primeiras bandas a fazer isso, no SXSW (leia mais sobre o SXSW aqui), em 2003, a gente tem uma relação muito boa com festivais do mundo inteiro e agora muita proximidade com o Primavera Sound. É a quinta vez que vamos, vai rolar um showcase por lá e aproveitaremos pra fazer uma ação em Portugal, que é um bom alvo, um local onde temos um ótimo relacionamento. É muito simples, na verdade. Essa é uma das novidades!

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