Entrevista com Lúcio Ribeiro: 10 Anos de Popload - Pulso

Entrevista com Lúcio Ribeiro: 10 Anos de Popload

Se você é fã da cena alternativa e independente de São Paulo, com certeza já ouviu falar em Lúcio Ribeiro. O jornalista já passou pela Folha de São Paulo e comanda o Popload há dez anos, uma plataforma que une site, festival e eventos musicais.

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Este ano o Popload Festival celebra sua quarta edição com shows de Libertines e Wilco, no dia 8 de outubro. Por lá, já passaram também nomes como The XX, Tame Impala, Metronomy e Iggy Pop.

Foto: Eduardo Anizelli / Folhapress
Foto: Eduardo Anizelli / Folhapress

Para entender melhor essa empreitada e como é estar à frente de um dos festivais mais interessantes do país, conversamos com o Lúcio sobre Popload, festivais e experiências musicais. Veja alguns trechos desse bate papo super bacana.

 

A essência

Projeto Pulso: A Popload é hoje uma plataforma, certo? Site, festival, gigs… Como funciona? 

Lúcio Ribeiro – “Sou eu e minha sócia, Paola. Ela cuida de toda a parte do artístico. Ela é muito boa e já tem uma entrada com agências americanas, inglesas, francesas muito fortes e isso já vem bem antes do Popload. A Paola cuida dessa parte e também de toda a engenharia do festival, eu fico ali com ela no artístico, mas ela faz o trabalho sujo (risos) e eu toco a Popload em si, manter a plataforma viva, ser mais que um festival.”

“O Popload tem 10 anos como site. Eu saí da Folha (e de todas as amarras) e fui nessa. Conheço a Paola desde que ela fez o Curitiba Rock Festival, Pop Festival, etc. Ela trouxe os Pixies muito nova e foi uma tentativa assim: ela tinha uma grana, mandou o e-mail e de repente a menina tava trazendo os Pixies pro Brasil quando eles estavam tocando só no Coachella. Foi a volta dos Pixies, era inimaginável. Eu a conheci em Curitiba como jornalista, dei a capa da Folha com a notícia do show e começamos uma amizade. Na época que eu já queria tirar o blog da Folha, já tava pra sair, ela ia se mudar pra São Paulo e decidimos fazer algo juntos. Fomos pro IG, na época que era super forte.”

Natalie Prass. Créditos: Oswaldo Corneti.
Natalie Prass. Foto: Oswaldo Corneti.

“Em 2009, também comecei a tocar como DJ, de brincadeira, sem ser DJ na ‘concepção eletrônica’ da palavra. De repente, eu tava rodando o Brasil inteiro, só em festa de rock de leitor do blog, da época, da coluna, enfim. E esse era um jeito de eu testar as músicas que eu escrevia sobre na Popload.”

“Aí surgiu a oportunidade de trazer uma banda, em 2009 mesmo, e a Paola sugeriu de usarmos o nome da Popload. O plano era fazer um show a cada 4 ou 5 meses, por causa de dinheiro, um monte de coisa. O primeiro foi mais ou menos, o segundo deu um lucrinho, o terceiro deu um prejuízo absurdo. Mas aí tudo cresceu de um jeito que não tinha mais como voltar. A gente se arrepende e se empolga cem vezes no meio do caminho e já temos mais de cinquenta pessoas envolvidas, entre temporários e a galera que fica com a gente mais tempo. É uma responsabilidade.”

Popload Festival 2016

Projeto Pulso: E sobre o Popload Festival, qual o tipo de experiência vocês promovem para os fãs?

Lucio Ribeiro – “Nesse ano, é a primeira vez que estamos fazendo tudo, segurança, bar, palco… Do atendimento à estrutura. E por isso a gente consegue ter um foco 100% no que é mais importante pra gente: a experiência do fã. O preço é uma coisa forte na gente. Por que o festival é caro? A principal coisa de valor do Popload, e quem vai sabe, é a experiência.”

“Por exemplo, Iggy Pop cabe no Lollapalooza, coisa pra 40 mil pessoas. Mas é som ruim, vendo o cara pouco, à distância, olhando mais pro telão. A gente não queria isso. A gente quer dar experiência de assistir a uma banda grande em locais menores. Mas é assim, se quer trazer Iggy Pop, você vai pagar X. Se é pra pouca gente, essa galera vai ter que te ajudar mais. Tem muita gente que paga, mas pro seu sonho estar realizado você desenha ele de uma maneira… E senta na planilha.”

Não lucramos até agora. A Heineken entrou como patrocinador, baixamos o ingresso, porque o dinheiro do patrocínio proporciona algumas coisas. Calvin Klein também. A Tanqueray entrou. Aí rola show no metrô, show extra, a gente ajuda ONG, um monte de ações, tentando dar coisas pra pessoas que não podem pagar.

“Esse ano, por exemplo, tem pista vip. Acho um horror, porque o verdadeiro fã fica a 20 metros da banda. Mas a gente consegue vender mais caro e quem tem grana paga mais. Aí, a gente consegue cobrar menos de quem pode pagar menos. Mas a gente também não pode fazer só isso, não é mágica.”

Popload 2015. Foto: Rafael Medina
Popload 2015. Foto: Rafael Medina

Projeto Pulso: Além do festival (no dia 08), vocês também estão promovendo shows gratuitos da Céu e do Liniker, além de um show extra do Wilco no auditório do Ibirapuera. Como essas ações se integram ao Popload?

Lucio Ribeiro: “A gente andou fazendo umas ações, tipo Cat Power no metrô (na estação Paraíso), de surpresa, anunciando nas redes sociais uma hora antes. Meio ‘deixar vazar’, sabe? Acho que essas ações criativas constroem melhor a marca. A gente tenta surpreender, até por ser um festival caro, tentamos aliviar isso de alguma maneira. Ainda sobre surpreender, ano passado abrimos o show do Iggy Pop com o Emicida. Sobre essa a mistura, então, esse tipo de coisa vamos continuar fazendo. Queremos até fazer mais. E neste ano botamos o Wilco no Ibirapuera. Não é que a gente planejou, mas estamos sempre com essa verve nervosa de fazer essas coisas diferentes.”

Emicida no Popload 2015, Foto: Rafael Medina
Emicida no Popload 2015, Foto: Rafael Medina

Projeto Pulso: Um dos pontos fortes do Popload é a curadoria musical. Como é essa sua relação com a pesquisa musical? 

Lucio Ribeiro – “É uma coisa que eu tenho, mesmo quando eu não trabalhava com música, eu só gostava de música. Sou da periferia, eu era um corpo estranho dentro de onde eu estava. Era muito mais fácil gostar de pagode e jogar futebol. Eu até gosto de samba, acho tudo ótimo. E passava horas com a galera jogando bola. A música foi me despertando para um negócio que eu também tenho com meus primos mais velhos, de paixão e também de ruptura.

Eles gostavam de Led Zeppelin e eu não gostava como forma de negação aos meus primos. Estava curtindo punk, que era mais do meu zeitgeist. E aí essa coisa de tentar descobrir banda, música, eu tenho desde lá. E também trago de lá a ideia das bandas que eu ouvia, que eram boas e agora tá ruim. Acho isso o maior papo chato, pior papo da história da música. O rock tá chato pra quem?

Tem um milhão de bandas legais, uma molecada fazendo um monte de coisas… Pode não servir pra você, pro seu estilo de vida, não é pra sua idade, sei lá, mas não fala que acabou, que não está legal. É complicado julgar, respeito muito isso. Eu tenho perto de mim pessoa super novas que consulto. Não é que eu gosto do que eles gostem, eu quero descobrir por que eles gostam. Não porque eu gosto ou não gosto. Eu odeio fazer crítica. As coisas não surgem sozinhas ou espontâneas, é tudo retrato de um tempo. É isso que me move, me move na música. 

Emicida no Popload 2015, Foto: Rafael Medina
Emicida no Popload 2015, Foto: Rafael Medina

Projeto Pulso: Além do Popload, quais outros festivais você gosta ou está na sua lista de desejos? 

Lucio Ribeiro – “Quando vou a um festival, gosto de toda a experiência. Eu desenho tudo, tipo, vou pro Sasquatch! e passo uma semana em Seattle e fico feliz da vida, mesmo se o festival for meia boca já fico feliz pra cacete. É perto de Portland também, naquele cenário meio Twin Peaks. Falaram também que o Sasquatch! tinha um anfiteatro natural, com penhasco e rio. Aí eu falei, ‘eu quero ir nesse festival!’, fui duas vezes e foi incrível. Esse é o tipo de festival que hoje em dia eu vou.”

Sasquatch! Foto: SASQUATCH! Music Festival
Sasquatch! Foto: SASQUATCH! Music Festival

Tinha jurado que não ia nunca mais ao Coachella, já fui seis vezes, mas aí voltei ano passado como convidado. Da primeira vez que fui, era pra ver os Pixies e Radiohead. Agora tem 800 brasileiros credenciados, blogueiras de moda… Já não é pra mim. É lindo de morrer, vale muito, mas você vai se irritar com algumas coisinhas. Mas é muito organizado, o ir e vir é ótimo.

Coachella - Foto: I Hate Flash
Coachella – Foto: I Hate Flash

Vou também no SXSW. O Primavera ainda tem um gigantismo que me atrai muito pelas bandas, por Barcelona, pelo público.No Brasil, tem o Coquetel Molotov, o Bananada

Também amava o Reading até os 28, 30 anos. Porque é aquilo, festival na Inglaterra é festival, né? Você pega trem, vai à pé, é uma caminhada, é roots, chove pra cacete, muita lama… Mas é um festival, as pessoas estão lá pela música, você não vê blogueira de moda. Quem está lá, está pela música. Do senhorzinho até o moleque, pela tradição, mas eu já não tenho físico pra ir nestes festivais.

Sei que é pecado, mas eu não tenho paciência pra Desert Trip, os clássicos, saudosismo, ir até o deserto, show de três horas… Vi um show do Neil Young em Paris lindo, três horas, mas cansa. Prefiro estar na Casa do Mancha, guardadas as devidas proporções. (risos)

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