Afinal, O Burning Man Está Perdendo Seu Propósito? - Pulso

Afinal, O Burning Man Está Perdendo Seu Propósito?

Se você é tão apaixonado por festivais quanto a gente e tá sempre de olho aqui no Pulso, já sabe que o Burning Man deste ano rolou entre os dias 28 de agosto e 5 de setembro. O evento, realizado desde 1986 e atualmente sediado em Black Rock, no deserto de Nevada, Estados Unidos, vem crescendo exponencialmente nos últimos anos e ganhando bastante espaço na mídia.

I Hate Flash! / Burning Man 2015
I Hate Flash! / Burning Man 2015

O festival celebra o desprendimento do mundo exterior e, por alguns dias, os entusiastas vivem numa verdadeira comunidade: não há dinheiro, por exemplo, e a moeda de troca é o escambo. A tecnologia de ponta, a liberdade de expressão e o forte viés artístico ajudam a definir o festival, mas não o limitam. Por lá, tudo é sempre voltado para as novas experiências.

I Hate Flash! / Burning Man 2015
I Hate Flash! / Burning Man 2015

Apesar da vibe “paz e amor” do Burning Man, o ano de 2016 ficou marcado por um infeliz ocorrido: alguns participantes vandalizaram o White Ocean, camping de luxo que reúne, geralmente, a galera mais rica do evento, fundado pelo DJ Paul Oakenfold e o herdeiro de um magnata russo. O motivo para tal? Na opinião de alguns burners, a ostentação da riqueza fere a real essência do festival e deve ser impedida. O ataque envolveu 200 galões de água potável despejados no local, fios elétricos destruídos e até mesmo cola nas portas dos trailers (!). A infraestrutura, é claro, ficou altamente comprometida.

Nikoll Moravcova
Nikol Moravcova

Além disso, outro ponto bastante comentado por vários veículos nesta edição foi a crescente utilização de aparelhos celulares e a consequente super instagramização do evento.

Celebridades como Diplo, Katy Perry, Paris Hilton e Cara Delevigne também aumentaram o apelo midiático da festa e as imagens se multiplicaram à exaustão pelas redes sociais. Para se ter uma ideia, a hashtag #BurningMan2013 foi replicada cerca de 19.000 no Instagram e, dois anos depois, o número subiu para 65.000 postagens com a vigente #BurningMan2015.

Segundo Carol Soares, pesquisadora cultural e sócia-fundadora do Projeto Pulso, “viagens, passeios e destinos são hoje grandes identificadores culturais que compartilhamos em nossas redes sociais. Roteiros exóticos e experiências incomuns são as novas grifes que gostamos de usar para comunicar quem somos, nossos valores e definir nosso ‘estilo'”.

“Com as cores do deserto, instalações de arte e figurino incomum, o Burning Man acaba sendo o cenário perfeito para a exibição da imagem e de um estilo de vida associado a essa experiência.” – Carol Soares

I Hate Flash! / Burning Man 2015
I Hate Flash! / Burning Man 2015 / Manuela Allo e Thais Carneiro

Por isso, decidimos ouvir algumas opiniões de quem frequenta, estuda e respira o Burning Man. Confira, logo abaixo, os comentários de Thaís Pires Carneiro, Daniel Strickland Devas e Raul Aragão acerca das polêmicas que permearam o festival em 2016.

– THAÍS PIRES CARNEIRO, empreendedora e burner: “Ir para um deserto hostil exige extremo preparo. Não tem água, não tem tomada, não tem dinheiro. Não levou, dançou. Todo mundo usa de todos os recursos possíveis para ter a melhor experiência, a mais confortável.

O problema não é o rico que é rico, nem o poser que é poser: em qualquer cidade, seja ela colaborativa ou não, existe gente bacana e gente não bacana. Ao meu ver não estamos falando de poder aquisitivo, mas de bom senso.

O Burning Man funciona como uma cidade e estabelece 10 valores a serem seguidos e eles funcionam como as leis de lá. Se você não as respeita, você está ferindo o environment. O que não justifica, obviamente, vandalismo. Mas, sendo o BM meio Mad Max, achei um jeito inusitado de mostrar que não dá pra continuar investindo no plug and play, que estão fazendo errado.

Eu não estava lá neste ano, só sei o que a mídia está contando e é bem delicado pegar apenas um recorte. Isso não significa que o festival inteiro está se “vendendo” ou se banalizando à “cultura dos ricos”. Como disse e repito, não tem a ver com poder e dinheiro. O problema não é ter conforto, é não assimilar a cultura local, seja qual for o motivo.”

I Hate Flash! / Burning Man 2015
I Hate Flash! / Burning Man 2015

– DANIEL STRICKLAND DEVAS, artista e burner: “Primeiramente, precisamos entender do que estamos falando: o Burning Man não é um festival como mencionado por muitas pessoas e, sim, uma cidade temporária que funciona 7 dias por ano, reconhecida pelo governo americano dessa forma.

Poderíamos chamá-la de “cidade dos festivais”. Ela iguala todas as pessoas em um mesmo nível social pelos princípios aplicados, e a tecnologia e modernidade chegam a todas os locais do mundo. Em Black Rock City não seria diferente.

Comparar o Burning Man com qualquer outro evento do mundo é um erro. Existem vários festivais acontecendo dentro do Burning Man. Na verdade, existem mais do que em todos os outros festivais que acontecem no planeta juntos, no mesmo local e semana. Há Coachellas, Universos Parallelos, Boom, Fusion, além de TED talks, festivais de circo, massagem, sustentabilidade, gastronômicos, eróticos e até interplanetários la dentro.

I Hate Flash! / Burning Man 2014
I Hate Flash! / Burning Man 2014

Coachellização do Burning Man? Jamais acontecerá por um simples motivo: O Burning Man vai muito além do conceito de festival. Em 16 anos trabalhando nos mais diversos festivais do mundo, de uma coisa eu tenho certeza: iguais ao Burning Man, nunca serão!

Sinal de telefone? Praticamente não existiu isso. Vi uma ou outra pessoa procurando maneiras de entrar em contato com o mundo externo e elas só conseguiam depois de muito esforço.

O evento tem um poder transformador de valores nas pessoas. É muito importante que pessoas com grande poder e influência no mundo externo à Black Rock City consigam também ver o que acontece ali dentro, absorver esses valores. Seria um enorme preconceito achar que pessoas “ricas” não podem frequentar o festival ou ainda esperar que elas simplesmente deixem de gostar de conforto. Não devemos julgar pessoas por ter ou não dinheiro e, sim, pelo que elas fazem com essa condição.

O Burning Man exige que todos sejam responsáveis pela própria sobrevivência. Todo mundo se prepara como pode para passar a semana no deserto e cada pessoa tem sua limitação até chegar na Playa. Assim como para muitos uma boa bicicleta, uma boa barraca ou motorhome, etc, são suficientes, para outros essa condição se estende a levar um bom chef de cozinha. Não vejo nada de errado nisso.

I Hate Flash! / Burning Man 2015
I Hate Flash! / Burning Man 2015

– RAUL ARAGÃO, fotógrafo e burner: “As pessoas falam do Burning Man de forma muito genérica e tentam categorizar o festival. O evento vai além de um festival de arte, música e cheio de liberdade. Não é porque Diplo, Ronaldo etc, vão que o festival está “perdendo sua essência”.

É natural pensar assim, especialmente porque não há muitos defensores do nosso lado, sabe? O Burning Man não tem um imenso público, por exemplo, então é muito fácil para a mídia julgar algum problema que ocorra por lá, especialmente em relação a um grupo rico.

Cada experiência no festival é única. A minha experiência é sempre diferente e eu já fui pra lá diversas vezes.

É claro que muitas coisas influenciam isso, as pessoas ao redor acampando, o próprio camping (barraca, motorhome, enfim) e até o clima. O cara pode ser party animal, yoggi ou até o turista que vai uma vez e nunca mais volta. É tudo muito diverso e o o Burning Man permite essa variedade e se propõe a oferecer tudo para todos. É claro que vai ter gente que só vai pelo Instagram, pela selfie, mas essa galera não “sobrevive”, não torna do Burning Man um hábito. Isso é normal. Quem é burner sabe disso.

Pra mim, o Burning Man vai continuar sim, o festival é maravilhoso e tenho certeza que ele vai se renovar, assim como faz há 30 anos #lovewins.”

I Hate Flash! / Burning Man 2015
I Hate Flash! / Burning Man 2015

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